terça-feira, 30 de março de 2021

MISTERIOSA – Vitoriano Palhares

 

Se tens nos olhos o fulgor da aurora,
Mostras na face a palidez da santa.
Não sei por que, tu és Vênus que chora,
Tua linda tristeza prende e espanta.

Por cima do diadema da beleza
Cinge-te a auréola opaca do martírio.
Tens do crepúsculo, acaso, a natureza?
Deverias ser um sol, e és um círio.

Sei que em tua alma se travou a luta
Do amor com o dever, que a vida abala.
Deus te clama do céu: – Mulher, escuta!
E alguém te diz na terra: – Arcanjo, fala!

Aonde irás tão formosa e pensativa,
Fugindo a sina que feriu Suzana?!
O mundo inteiro chama-te: – cativa;
Somente o poeta diz que és soberana.

Lá, onde a escrava derramou seus prantos;
Lá, onde Agar da culpa se redime;
Tu, com teus beijos, pagarás mil cantos;
Alguém, com prantos, lavará teu crime.

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO – Hilda Hilst

 

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

DOIS POEMAS DE VILI SANTO ANDERSEN

 

MEU PRIMEIRO LIVRO

Outro dia
encontrei na estante fria
(amarelado)
o livro em que aprendi
resignado
o ABC.

Um vivo-morto como eu.
Tive a impressão
que o livro
de tanta saudade
me reconheceu.
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DESPREZO

Ela sai...
bate
abruptamente
a porta do meu carro
e vai embora.

Tudo foi em vão...

O carro não sentiu nada
mas como doeu meu coração.