terça-feira, 28 de setembro de 2021

CANSAÇO – Álvaro de Campos (Um dos heterônimos de Fernando Pessoa, in "Poemas")

 

O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente –;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

DOIS POEMAS - Eugénio de Andrade

 

O SILÊNCIO

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
..............
ENTRE OS TEUS LÁBIOS

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

CRUA – Alane Ramos

Ponha-se no seu lugar!
Palavras fortes para quem nasceu,
Como eu, sem alinho.
Nunca me compreendi em outro recinto
Que não fosse o da escrita.
Desde que deram voz à minha loucura
Amanheço com um aperto nos sonhos...
Inconsequência de uma razão
Advinda de um falar esmo.
Justo hoje...!
Mudaram-me de desejo;
Depois de um banho...
Vestiram-me de poeta e
Propuseram-me um vício.
Confesso...
O esforço do ócio dita um dia honesto,
E...
A maldade das horas me arrebata
De um tempo que tende ao milagre.
Sabes...
Tantos sermões sem sentido nos vãos dos meus anos.
A fala justa... não pronuncio,
Porque guardo um fulgor
Que não se extingue na curva
Inglória de um silêncio
Amado em segredo...
Não há princípios sãos para quem se veste de reservas.
Não me deixe existir neste sentimento nu
Que n'alma exala um nós cativo ao desastre;
É que és paixão que acoita a árdua tensão dos
Sentidos torrentes.
Não me esqueça, por acaso, nesta dor
Pois...
Na hora suave em que o frio adormece,
Antes que se estendas em tuas dúvidas,
Retiram o espelho ante a mim...
hoje...
Tanto me observei neste vazio
Que vi um terço do que pertenço
Ser enterrado no inconsciente como indigente.
Nem sempre estamos em bons tons...
A vida é um voo sem asas.