domingo, 30 de janeiro de 2022

OUTROS VERSOS SOB A ESPERA – Nívia Maria Vasconcellos

O tempo levou minha crença,
Levou minha fé,
Levou as lembranças que habitavam minha sala
E levou as horas da minha esperança.

O tempo, insistentemente,
Levou-me o livro que a estante
De meu ser guardava com cautela e medo,
Esse tempo levou-me até o medo,
E outros sentimentos que me tornavam humana.

O tempo levou o meu equilíbrio
E a harmonia dos meus ornamentos,
Levou os meus segredos
E o resto do sorriso que meus lábios ensaiavam dar.

O tempo levou minhas poesias,
Minhas leituras,
Levou minha atenção,
O meu poder de chorar;
Levou até mesmo a minha nudez.

O tempo (Este tempo!)
Levou-me... A tua volta,
A lágrima e a existência.

sábado, 29 de janeiro de 2022

POEMAS de Rosa Alice Branco

 

MANUAL DE JARDINAGEM

É preciso mudar a terra do poema,
talvez arranjar um vaso maior
e deitar estrume em cada vaso.
Ainda ontem removi a terra
e vi no peso das palavras como escondem
o segredo da leveza.
É melhor esperarmos pela primavera/
por todos os meses que faltam
para hoje. Até lá
regarei o vaso como de costume.
Tenho exatamente o tempo de uma pausa/
atravessa o poema com o teu passo ágil
e senta-te comigo.
Que palavras nos fizeram falar? O que buscamos
no silêncio? Qual a melhor hora
para regar a água?
Caminhemos um pouco. No fundo do vaso
a razão declina no corpo do poema.
Havemos de a retirar com a pá que floresce na primavera/
depois atravessamos verso a verso
à superfície
sem vaso que contenha a humildade da terra.
......
A TUA PELE DESCALÇA

Veio uma onda. A varrer o meu sono.
Caminhava nele como caminho na areia.
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história. A tua voz
cria as memórias que hei-de ter. Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa. Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de a amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

POEMA REVISITADO – Anne Cerqueira

 

Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado.
Vou ler um dos meus poemas preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa
e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente e diga:
não sei o que fazer com isso.
E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa nem má.
Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta.
Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função.

SONETOS de Emídio de Miranda

 

ESSA QUE PASSA

Foi minha amante essa mulher que passa...
Sorveu-me em beijos todo o meu ideal!
E comigo bebeu na mesma taça
O vinho do desejo sensual...

Muito tempo possuímos nós, sem jaça,
A gema da ventura triunfal!
Mas um dia partiu... E ei-la devassa,
Bracejando no pélago do mal...

Quando ela passa, eu vejo na tristeza
De seu olhar de erótica beleza
Todo o brilho da orgia da desgraça...

E não posso ficar indiferente,
Só porque afinal, infelizmente,
Foi minha amante essa mulher que passa...
......
A UM BURGUÊS

Tu, ventrudo burguês analfabeto,
Escultura rotunda da irrisão,
Para quem o viver mais limpo e reto
Consiste em ser devoto e ter balcão;

Tu, que resumes todo o teu afeto
No dinheiro, - o metal da sedução -
Pelo qual negociarás abjeto
Tua esposa, teu lar, teu coração,

Escuta, ó ignorantaço, o que te digo:
Esse ouro protetor, que é teu amigo,,
Que te deu o conforto de um paxá,

Pode comprar qualquer burguês cretino;
Mas a lira de um vate peregrino
Não compra, não comprou, não comprará.
......
CRUZES DA ESTRADA

Aprumada, serena, humilde e suplicante,
Tragicamente negra em seu sombrio porte,
A cruz da estrada lembra a todo caminhante,
Que por ali passou o ciclone da morte.

Passo... Não há como negar ... A cruz testemunhante
Diz bem que ali partiu-se o fio de uma sorte,
E outra aqui, outra ali, e mais outras adiante
Dão uns ares tumbais às estradas no Norte.

De sangue algumas são, cruzes de punhais,
Ou de balas talvez... Causam pavor (Passemos
Sem olhar ). Outras são de morte naturais,

Decrépitos anciãos que tombaram. Rezemos.
E aquela toda azul por entre os pereirais?
Cruz de moça enganada! Cruz de amor. Choremos.