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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

CANTO DO HOMEM COTIDIANO – Ildásio Tavares

 

Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O playboy das mariposas
O imperador da contabilidade.

Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.

Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.

Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.

Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.

Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.

Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.

Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.

Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.

Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.

Esse que joga pelada
E é craque da canelada.

Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.

Esse que aguenta o rojão
Pro filho ter instrução.

Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.

Esse que vejo na rua
Falando da ida à lua.

Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,

Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

ROSA DE SAIGON – Gabriel Solis

 

Apareceu de repente
Naquele beco escuro
Na cidade em chamas
Me chamou com seu olhar medroso
E eu fui, arrastando meus pés,
Junto com o meu cansaço e minha sujeira,
Meu cheiro de sangue e morte.

Ela subiu pela escada escura,
Eu a segui com minha culpa esquecida;
E no quarto miserável
Iluminado pelas chamas
Lembrei de outra rosa,
Uma rosa longínqua e sofrida
Que chorava minha morte
Numa terra que nunca
Conheceu a guerra.

Mas esta rosa
Aqui e agora,
Matava minhas vontades;
Há tanto esquecida na mata,
com seu cheiro de incenso e flor,
Com seu corpo pequeno e suave,
Com sua boca de criança na minha.

Eu a amei sem saber seu nome,
Eu a feri com minhas botas,
Com meus botões,
Com minhas fivelas,
Até esvaziar meu ser dentro de seu corpo...
Ela derramou uma lágrima,
Ou eu imaginei...?

De novo na rua Escura,
De novo o medo, a morte.
Então eu vi minha Rosa de Saigon
Correndo em minha direção.

Eu vi minha rosa cair na sua rua,
Com uma dúzia de rosas encarnadas
Brotando do seu corpo.