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quinta-feira, 5 de maio de 2022

POEMAS de Giselda Medeiros

 

ANTIGÊNESIS

E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
.......
TUA VOZ

Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
.......
PARÁBOLA DO AMOR RECÉM-NASCIDO

E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
.......
FOZ

Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

POEMAS de Thomas Moore

 

AQUELES NOTURNOS SINOS
Tradução de Cunha e Silva Filho
........
Ah, noturnos sinos! Noturnos sinos!
Quantas histórias sua música narram,
Da juventude, do lar, daquele doce tempo,
Quando, pela última vez, suas ternas melodias ouvi .

Já se foram aquelas horas jubilosas,
E muitos corações que, então, alegres eram,
Agora profundamente dormem dentro do túmulo.

E, assim, há de ser quando me for.
Harmoniosos, continuarão ainda repicando aqueles sinos
Enquanto outros bardos pelas ravinas hão de andar
Vosso louvores entoando, vossos doces noturnos sinos.
.......
EM VENEZA
Traduções de Ary de Mesquita
.....
Das ÁRIAS NACIONAIS

Cuidado, devagar, silêncio, gondoleiro,
Não queiras me acordar o quarteirão inteiro,

Além do calmo olhar mirífico da estrela,
Nenhum olhar sequer não deve agora vê-la.

Esta aventura, eu sei, é muito perigosa,
Porém fugir do espinho é não querer a rosa.

Agora espera aqui, fingindo sentinela,
Enquanto eu vou subir nas grades da janela;

E ao passo que me vês, às luzes do luar,
Para o tempo correr distrai-te a meditar

Que o homem pelo céu se aventurasse quanto
O faz pela mulher se tornaria um santo.
.......
DOS "POEMAS JUVENIS"

Como aquele que confiado
Em sereno céu de estio
O seu barco pôs no mar,
É o louco do apaixonado
Que levado do amavio
Dos teus olhos quis te amar.

O mar é sempre inconstante,
Inconstante como os ventos,
E os barcos naufragarão. . .
E tu que, no mesmo instante,
Permutas mil sentimentos,
Tu feres um coração.
.......
À JÚLIA CHORANDO
Dos POEMAS JUVENIS

Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.

Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais.
.......
DAS "ÁRIAS NACIONAIS"

Vai rolando, meu ribeiro,
Vai rolando bem ligeiro,
Porém antes de no mar
As águas tuas depores,
Entrega a alguém estas flores,
Que sobre ti vou lançar.

E vai dizer-lhe também
A esse querido alguém,
Que, se algum dia for meu,
De nossa vida a corrente
Correrá tão docemente
Como a flor que em ti correu.

Porém se vires, amigo,
Que se moteja comigo,
As águas veloz volteia,
E atira as flores fagueiras
Nas fragosas cachoeiras,
Ou sobre as ribas, na areia.

E diz que serão lançados,
Seus encantos desbotados,
A mocidade perdida,
Como as flores que se espargem
Do riacho sobre a margem,
À margem triste da vida.