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quinta-feira, 5 de maio de 2022

POEMAS de Giselda Medeiros

 

ANTIGÊNESIS

E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
.......
TUA VOZ

Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
.......
PARÁBOLA DO AMOR RECÉM-NASCIDO

E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
.......
FOZ

Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

OS INIMIGOS DAS ÁRVORES – André Nogueira

 

Os inimigos das árvores
são inimigos
dos amigos das árvores.
Os inimigos das árvores
são inimigos
também
dos inimigos das árvores.
Porque toda
e cada árvore
é de todo e de cada
amiga.

Os inimigos das árvores
são meus
e de todos
inimigos.
Os inimigos das árvores
são meus
e de si mesmos
inimigos.
Porque as árvores são minhas,
de todo e de cada
e de toda humanidade
amigas.

Os inimigos das árvores
são inimigos
das aves, macacos,
abelhas, formigas.
Porque as árvores são minhas
e de toda humanidade
e toda não-humanidade
amigas.

E de si mesmos inimigos,
porque a sombra de uma árvore
é de todos
e deles também
o abrigo.
Porque as árvores são
amigas de todos,
mas nem todos são delas
amigos.

Quem faz guerra com as árvores
antes faz guerra
consigo.
E a si mesmo,
a si mesmo e a todos
castiga.
Porque a vida do homem é rápida,
efêmera intriga:
é paz
e é guerra,
é amor
e é fome,
e com quê haverá
de encher a barriga?
As árvores dão
aos amigos
igualmente aos não-amigos,
igualmente aos inimigos,
amoras, pitangas,
goiabas e figos.

Porque a vida do homem
é paz
e é guerra,
é amor
e é fome,
efêmera intriga:
e não obstante
ele serra
das árvores todas
a mais verdejante
e antiga.
De frutos
a mais abundante,
de sombras
a mais generosa…
A todas eu amo,
de frutos e sombras,
de paz e amor as frondosas
amigas.