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terça-feira, 10 de maio de 2022

POEMAS de Mírian Freitas

 

DA MORTE

Quando a morte chegar a esta casa
não ameaces o silêncio com o choro convulso.
Vá até o pomar e colhe frutos
aperta entre os dentes as peras
e os figos
mentaliza todas as flores amarelas
acaricia a lágrima da ausência
deita-te sobre a relva e lembra-te dos pássaros
e do arder do vento
entre as árvores e as águas
que se repetem.
.......
FLUXO

Entre nuvens, cascalhos, águas, répteis,
te sei. Sobrevivente da sina encurtada
nas linhas da palma
és a versão única de perdão e nobreza
− vento que toca meu rosto
asa de ouro, cabelos de cobre
braço do rio.
Após o tempo dos dias ruins
nenhum segredo a mais posso te contar
depois que tu me disseste que
o amor não morre nunca.
.......
VOZ-FÊMEA

Tuas costas negam qualquer espécie de perdão.
Quem haveria pecado mais do que eu,
do que tu mesmo?
Possuímos o crânio da ilusão.
O poema se exilou para além dos muros
das abóbadas do Taj Mahal.

O pássaro tardio leva no bico a semente
de mostarda
o pelicano celebra na sombra
as desvantagens do amor,
o suplício de um dialeto novo,
o desejo da palavra loucura.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

AFRODITE – Marlene de Andrade Martins

 

Contida das águas que outrora
entregaram de volta a Afrodite
a virgindade perdida,
a brisa agora repousa nas casas,
nas igrejas de muralhas caiadas
de cal virgem.
A branquidão disputa a primazia
com o brilho do sol;
sol que espreita o céu azul
e matiza o mar plúmbeo;
disputam a posse da beleza
da Deusa do Amor.

Avistamos Citérea
um pouco antes das quatro,
o sol já se curvava.
Atracado o barco, os carros
ocupando a frente da plataforma
sairiam primeiro,
mas a gente esvaía-se,
atropelando-se e aos carros,
incomodando-se mutuamente.

O mar batia e alisava
as pedras com a escuma,
salpicando gotas salgadas,
peneirando-as numa poeira úmida
e temperada.

E a brancura contrastava
com os vultos pretos ambulantes
que traziam mulheres dentro de si.
A essas, as águas não ajudavam
com sua magia,
eram envelhecidas jovens
e não se acudiam a Zeus.
À terra sim, se acudiam, mutuamente.

Os mitos serviam aos escritos
e às esculturas,
ficaram tão distantes!
Mas a verdade estava ali;
terra dura e pedregosa
que as oliveiras e as uvas floriam.
E os vultos se fazem na inconsciente
obrigação de perpetuar-se em vida.

O mesmo sol que brilhara disputando
a primazia da beleza da Deusa,
castiga agora
as que não nasceram das escumas.

As fortes ondas tornam roliças as pedras
para que as escumas descansem.
Burilando as pedras,
o calcário areava as mãos de dedos longos,
finos para o anel de pérola e diamantes.
As veias altas personalizavam as mãos
que, no burilar, instigavam fantasias
ao que as via.

Na noite o mar ficara furioso.
Noite escura!
No bar - defronte se atracavam os barcos -
à luz das lamparinas
os homens tomavam vinho vermelho
e falavam... quem sabe, da pesca...
quem sabe, do porquê os barcos
não chegaram... ou talvez
entendessem por que as ondas levaram
o anel de pérola e diamantes
das mãos que burilavam as pedras roliças.

Talvez explicassem:
fora uma oferenda a Vênus.

E a brisa se refazendo sempre
no calafrio das águas.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

POEMAS de Giselda Medeiros

 

ANTIGÊNESIS

E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
.......
TUA VOZ

Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
.......
PARÁBOLA DO AMOR RECÉM-NASCIDO

E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
.......
FOZ

Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.