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segunda-feira, 16 de maio de 2022

POEMAS de Mariana Madelinn

 

QUAL O SENTIDO?

Penso na vida
Como a lágrima
Derramada
No filme
O arrepio sentido
Nas primeiras vezes
E o suspiro
Apaixonado

Mas há
Quem diga
Que é o caminhão
Vindo a mil por hora
Na sua direção
A família de margarina
Das propagandas
As explicações
As palavras

O dito
O dito
O dito,
Não o sentido.
.......
SOMA

Não quero
Os restos
Quero sentar-me
À mesa
Escolher o prato

Fazer banquete
Enfeitar a festa
Ser celebrada
Reconhecida
Vista

Dispenso
As sobras
Sendo minha
Já sou excesso

Se chegar
Tire os sapatos
Peça licença
Traga seus pratos
Vamos somar.
.......
EU SOU RIO

Eu temo
Uma vida
Morna
Escolhas óbvias
E tudo aquilo
Que não
Me cause arrepios

Não sei ensaiar
Paixões
Forjar interesses
Nem me prender
À comodidades

Minha única
Regra
É o movimento
E a reinvenção

A água
Tem memória
Mas o rio
Nunca é o mesmo.

terça-feira, 10 de maio de 2022

POEMAS de Mírian Freitas

 

DA MORTE

Quando a morte chegar a esta casa
não ameaces o silêncio com o choro convulso.
Vá até o pomar e colhe frutos
aperta entre os dentes as peras
e os figos
mentaliza todas as flores amarelas
acaricia a lágrima da ausência
deita-te sobre a relva e lembra-te dos pássaros
e do arder do vento
entre as árvores e as águas
que se repetem.
.......
FLUXO

Entre nuvens, cascalhos, águas, répteis,
te sei. Sobrevivente da sina encurtada
nas linhas da palma
és a versão única de perdão e nobreza
− vento que toca meu rosto
asa de ouro, cabelos de cobre
braço do rio.
Após o tempo dos dias ruins
nenhum segredo a mais posso te contar
depois que tu me disseste que
o amor não morre nunca.
.......
VOZ-FÊMEA

Tuas costas negam qualquer espécie de perdão.
Quem haveria pecado mais do que eu,
do que tu mesmo?
Possuímos o crânio da ilusão.
O poema se exilou para além dos muros
das abóbadas do Taj Mahal.

O pássaro tardio leva no bico a semente
de mostarda
o pelicano celebra na sombra
as desvantagens do amor,
o suplício de um dialeto novo,
o desejo da palavra loucura.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

SONETOS de Luiz Delfino

 

A PRIMEIRA LÁGRIMA

Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d'ouro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.

Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.

E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
............
QUE VOS DARIA?

Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;

Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu d'outros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...

Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.

Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias d'ouro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
............
EVA

Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.

A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.

Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;

Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
..........
CADÁVER DE VIRGEM

Estava no caixão como num leito,
Palidamente fria e adormecida;
As mãos cruzadas sobre o casto peito,
E em cada olhar sem luz um Sol sem vida.

Pés atados com fita em nó perfeito,
De roupas alvas de cetim vestida;
O tronco duro, rígido, direito,
A face calma, lânguida, dorida...

O diadema das virgens sobre a testa,
Níveo lírio entre as mãos, toda enfeitada,
Mas como noiva, que cansou na festa.

Por seis cavalos brancos arrancada...
Onde irás tu passar a longa sesta
Na mole cama, em que te vi deitada?!...