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quinta-feira, 2 de junho de 2022

OS DIAS MÁGICOS – Salomão Rovedo

 

Braços abertos, correndo contra o vento.
Por que de repente veio essa lembrança?

Só se foi o retrato de um dia da infância,
brincando na areia dura de Olho d'água.

Chorar a vida, se de tudo um pouco eu ri?
Esquecer pequenos amores que não tive?

São sonhos, terra para a lavratura, medos,
plantei-os tais sementes que jamais brotam.

Mas havia o demônio, indômito hóspede,
insaciável, Agnus Dei, libera-me Dominé.

Sobrevivendo à morte e à transfiguração,
arma teleguiada: um coração que explode.

A alegria me alegrou, de tristeza entristeci,
enquanto o tempo disfarça perigosamente.

Enquanto não metamorfosear em calendário,
uma data de nascimento, transporte e destino.

A data na lápide, a citação na enciclopédia,
verbete de biblioteca, livro que ninguém lê.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

UM SENTIDO LÓGICO DO ILÓGICO - Patricia Peterle

 

para Giorgio

É verdade não importa a distância.
Hoje nos reencontramos e você sabe
um pouco de ti carrego comigo:
óculos e bigode não podem faltar.

O cheiro do filé de bacalhau frito de Santa Barbara
se mistura ao sabor das alcachofras
um lançamento de livro parada no lago Bracciano
e um aperitivo
afinidades siderais não passam
com o passar das estações
como a perspectiva da cidade se renova
garupa rasante em carros e monumentos
viagens num punhado tomado da lembrança.

Lembrança desejo irrompente quando
as baterias do controle se tornam mais fracas.

Aqui a distância não importa nada
as regras do jogo são outras
não sabemos
as inventamos
hoje nos reencontramos na praia
vestes elegantes num jogo sem sentido
sem sentido lógico sentindo a areia e
as nossas vozes que se falavam por números
alógicos. Você dizia 26 e eu respondia 12
você 234 e eu 71. Subterrâneos cinzéis
ampulhetas infindáveis
precipícios de um sonho.

É verdade a distância não importa.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

POEMAS de Thomas Moore

 

AQUELES NOTURNOS SINOS
Tradução de Cunha e Silva Filho
........
Ah, noturnos sinos! Noturnos sinos!
Quantas histórias sua música narram,
Da juventude, do lar, daquele doce tempo,
Quando, pela última vez, suas ternas melodias ouvi .

Já se foram aquelas horas jubilosas,
E muitos corações que, então, alegres eram,
Agora profundamente dormem dentro do túmulo.

E, assim, há de ser quando me for.
Harmoniosos, continuarão ainda repicando aqueles sinos
Enquanto outros bardos pelas ravinas hão de andar
Vosso louvores entoando, vossos doces noturnos sinos.
.......
EM VENEZA
Traduções de Ary de Mesquita
.....
Das ÁRIAS NACIONAIS

Cuidado, devagar, silêncio, gondoleiro,
Não queiras me acordar o quarteirão inteiro,

Além do calmo olhar mirífico da estrela,
Nenhum olhar sequer não deve agora vê-la.

Esta aventura, eu sei, é muito perigosa,
Porém fugir do espinho é não querer a rosa.

Agora espera aqui, fingindo sentinela,
Enquanto eu vou subir nas grades da janela;

E ao passo que me vês, às luzes do luar,
Para o tempo correr distrai-te a meditar

Que o homem pelo céu se aventurasse quanto
O faz pela mulher se tornaria um santo.
.......
DOS "POEMAS JUVENIS"

Como aquele que confiado
Em sereno céu de estio
O seu barco pôs no mar,
É o louco do apaixonado
Que levado do amavio
Dos teus olhos quis te amar.

O mar é sempre inconstante,
Inconstante como os ventos,
E os barcos naufragarão. . .
E tu que, no mesmo instante,
Permutas mil sentimentos,
Tu feres um coração.
.......
À JÚLIA CHORANDO
Dos POEMAS JUVENIS

Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.

Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais.
.......
DAS "ÁRIAS NACIONAIS"

Vai rolando, meu ribeiro,
Vai rolando bem ligeiro,
Porém antes de no mar
As águas tuas depores,
Entrega a alguém estas flores,
Que sobre ti vou lançar.

E vai dizer-lhe também
A esse querido alguém,
Que, se algum dia for meu,
De nossa vida a corrente
Correrá tão docemente
Como a flor que em ti correu.

Porém se vires, amigo,
Que se moteja comigo,
As águas veloz volteia,
E atira as flores fagueiras
Nas fragosas cachoeiras,
Ou sobre as ribas, na areia.

E diz que serão lançados,
Seus encantos desbotados,
A mocidade perdida,
Como as flores que se espargem
Do riacho sobre a margem,
À margem triste da vida.