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quinta-feira, 2 de junho de 2022

OS DIAS MÁGICOS – Salomão Rovedo

 

Braços abertos, correndo contra o vento.
Por que de repente veio essa lembrança?

Só se foi o retrato de um dia da infância,
brincando na areia dura de Olho d'água.

Chorar a vida, se de tudo um pouco eu ri?
Esquecer pequenos amores que não tive?

São sonhos, terra para a lavratura, medos,
plantei-os tais sementes que jamais brotam.

Mas havia o demônio, indômito hóspede,
insaciável, Agnus Dei, libera-me Dominé.

Sobrevivendo à morte e à transfiguração,
arma teleguiada: um coração que explode.

A alegria me alegrou, de tristeza entristeci,
enquanto o tempo disfarça perigosamente.

Enquanto não metamorfosear em calendário,
uma data de nascimento, transporte e destino.

A data na lápide, a citação na enciclopédia,
verbete de biblioteca, livro que ninguém lê.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

POEMAS de Rubens Jardim

 A DESEJADA

Onde está a desejada da minha alma,
a mulher que criou janelas, portas e abismos
e se escondeu de todos os meus caminhos?
Antes que o tempo destrua minha calma

Eu quero me debruçar sobre sua presença.
Ou sobre sua lembrança. Preciso de um prisma
Para celebrar as suas cóleras, as suas cismas.
A desejada da minha alma é uma sentença

Que ficou no avesso controverso do fichário,
é o verso rabiscado em um momento raro,
é a urgência escrita desta brasa imaginária.

Sou o construtor desta mulher lendária
que me habita como botequim ignaro
e me faz louvar até as mágoas mais ordinárias.
.......
EXERCÍCIOS DE VIAGEM

1
entre a via veneto
e a peixoto gomide
existe um fosso

e nenhum castelo

existe um poço
e nenhuma água

existe eu posso?
entre Roma
e São Paulo
eu fico com Cotia
sem caos aéreo
e sem palavras importantes
como Campidoglio
Coliseu, Piazza Navona
ou Fontana di Trevi.
Eu quero as palavras sem gala
as palavras simples
que nomeiam a maria-sem-vergonha
e um pássaro que passa
sem nome
– mas voa!
.......
FRAGMENTOS

I
Minha alma é pequena
e minha memória menor ainda.
Não fosse isso estaria mais perto
daquilo que me corrói:
o leite derramado.

II
Não vou me encontrar
se não encontrar em outra parte
A parte de mim que não responde:
Grito soterrado.

III
Já tentei acertar contas
com Deus e o Diabo
E as terras do sol.
Mas minha dívida
é comigo mesmo.

IV
Julgador e julgado
Réu e juiz
Não há farsa
nessa trama
Mas haverá proclamas?

segunda-feira, 16 de maio de 2022

OUVE – Gilson Pereira de Araújo

 

Haverá sempre um ouvido a ouvir
As queixas que deixas a preencher o vazio.
Não serão vãos teus lamentos, perdidos
Na distância que te afasta de quem te quer ouvir.

Preencherão o espaço, invisível aos olhos
Que se alegram no que se dissipa à flor dos lábios,
Mas persistem naqueles que enxergam almas
Nas vozes que galopeiam os sentimentos a vagar.

Dói-me tua ausência, que se firma a cada dia,
A desenganar-me da esperança que se oferece
Sem que se faça real, do sonho que alimento,
O passado que amo e que presente quero.

Ouvidos ouvem os gemidos de minh’alma,
Como se nada fosse dito no silêncio que alimento.
Parece-me vão o sentimento sentido em teu louvor.
E, desejo o silencio que se deseja por eterno.

O caminho, inevitavelmente, só estreita e encurta
E o passado é lembrança que não se goza estando só
Passos de um caminho sem começo
Que não me acompanham nem me causam tropeço,

Seguem a mesma trilha sem que me mostre o rumo,
E, assim, sigo insano em permanente prumo.
Ouvidos ouvem, dessa dor, inerte, o vão lamento
Sem que o coração sinta a causa do sentimento.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

UM SENTIDO LÓGICO DO ILÓGICO - Patricia Peterle

 

para Giorgio

É verdade não importa a distância.
Hoje nos reencontramos e você sabe
um pouco de ti carrego comigo:
óculos e bigode não podem faltar.

O cheiro do filé de bacalhau frito de Santa Barbara
se mistura ao sabor das alcachofras
um lançamento de livro parada no lago Bracciano
e um aperitivo
afinidades siderais não passam
com o passar das estações
como a perspectiva da cidade se renova
garupa rasante em carros e monumentos
viagens num punhado tomado da lembrança.

Lembrança desejo irrompente quando
as baterias do controle se tornam mais fracas.

Aqui a distância não importa nada
as regras do jogo são outras
não sabemos
as inventamos
hoje nos reencontramos na praia
vestes elegantes num jogo sem sentido
sem sentido lógico sentindo a areia e
as nossas vozes que se falavam por números
alógicos. Você dizia 26 e eu respondia 12
você 234 e eu 71. Subterrâneos cinzéis
ampulhetas infindáveis
precipícios de um sonho.

É verdade a distância não importa.