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quinta-feira, 19 de maio de 2022

POEMAS de Rubens Jardim

 A DESEJADA

Onde está a desejada da minha alma,
a mulher que criou janelas, portas e abismos
e se escondeu de todos os meus caminhos?
Antes que o tempo destrua minha calma

Eu quero me debruçar sobre sua presença.
Ou sobre sua lembrança. Preciso de um prisma
Para celebrar as suas cóleras, as suas cismas.
A desejada da minha alma é uma sentença

Que ficou no avesso controverso do fichário,
é o verso rabiscado em um momento raro,
é a urgência escrita desta brasa imaginária.

Sou o construtor desta mulher lendária
que me habita como botequim ignaro
e me faz louvar até as mágoas mais ordinárias.
.......
EXERCÍCIOS DE VIAGEM

1
entre a via veneto
e a peixoto gomide
existe um fosso

e nenhum castelo

existe um poço
e nenhuma água

existe eu posso?
entre Roma
e São Paulo
eu fico com Cotia
sem caos aéreo
e sem palavras importantes
como Campidoglio
Coliseu, Piazza Navona
ou Fontana di Trevi.
Eu quero as palavras sem gala
as palavras simples
que nomeiam a maria-sem-vergonha
e um pássaro que passa
sem nome
– mas voa!
.......
FRAGMENTOS

I
Minha alma é pequena
e minha memória menor ainda.
Não fosse isso estaria mais perto
daquilo que me corrói:
o leite derramado.

II
Não vou me encontrar
se não encontrar em outra parte
A parte de mim que não responde:
Grito soterrado.

III
Já tentei acertar contas
com Deus e o Diabo
E as terras do sol.
Mas minha dívida
é comigo mesmo.

IV
Julgador e julgado
Réu e juiz
Não há farsa
nessa trama
Mas haverá proclamas?

quinta-feira, 28 de abril de 2022

EMERGÊNCIAS – Mariana Perna

 

i. Agora se recria

Eu choro o teu nome
pingo os teus dedos.

A gravata de sangue
que não pode me pertencer.
As unhas de seda
que tudo podem tecer
hoje já formam rios
alfabetos.

Criam
levam adiante
de volta
e o que a mim não pertence
me perpassa, vai embora.
Deixa seu novo nome
pela areia…

Perplexa

Apenas observo, de dentro do automóvel.

ii. Ela está no meio de nós

Há uma voz que vem das montanhas
Há uma força que nos acompanha
E grita o seu silêncio
Por cima de todo este caos.

Uma poesia que reina sobre a sujeira

Infinita, absoluta.

Eu padecerei
Você, também
Mas ela continuará a soar
através dos tempos
Invencível, correndo com os ventos
mesmo quando tudo terminar.

Será levada de mão em mão

Até chegar ao topo
Do mais alto morro,
onde tudo começou.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

POEMAS de Camilo Mota

 

ALEGORIAS DE RODA

Olhos infantis
na roda gigante fitos
nada investigam:
quiçá uma vertigem sentem.

que mais sentiriam
se a orquestra em peso
derramasse giros coloridos
sobre a cidade em chamas?

o uivo da ex-secretária
desprende-se alado
sobre túmulos concêntricos.
...................
POR TRÁS DA PALAVRA HÁ O CAOS

o caos antecede o tempo
o tempo antevê o homem
o homem antepara o caos

o caos antecede o tempo antevê
o homem antepara o caos

o caos
antepara o homem
antevê o tempo
antecede o caos
......................
MANTRA

torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja

palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor

não se perde nas veias
o sagrado fluído...

em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser

ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã

a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser