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quinta-feira, 28 de abril de 2022

EMERGÊNCIAS – Mariana Perna

 

i. Agora se recria

Eu choro o teu nome
pingo os teus dedos.

A gravata de sangue
que não pode me pertencer.
As unhas de seda
que tudo podem tecer
hoje já formam rios
alfabetos.

Criam
levam adiante
de volta
e o que a mim não pertence
me perpassa, vai embora.
Deixa seu novo nome
pela areia…

Perplexa

Apenas observo, de dentro do automóvel.

ii. Ela está no meio de nós

Há uma voz que vem das montanhas
Há uma força que nos acompanha
E grita o seu silêncio
Por cima de todo este caos.

Uma poesia que reina sobre a sujeira

Infinita, absoluta.

Eu padecerei
Você, também
Mas ela continuará a soar
através dos tempos
Invencível, correndo com os ventos
mesmo quando tudo terminar.

Será levada de mão em mão

Até chegar ao topo
Do mais alto morro,
onde tudo começou.

terça-feira, 19 de abril de 2022

PRIVILÉGIO NEGRO – Crystal Valentine

 

Tradução de Tom Jones
.........
Privilégio negro é um elefante pendurado na sala
é a memória de um navio negreiro
E eu pedindo a Deus pra ter Alzheimer

Privilégio negro é eu já ter memorizado
O discurso fúnebre do meu sobrinho
E do meu irmão,
E do meu pai,
E do meu filho não concebido.
Privilégio negro é, além disso eu pensar
No nome da minha irmã,
A salvo dessa lista.

Privilégio negro sou eu fingindo
Que tenho intimidade com Trayvon Martin
Pra chamá-lo pelo primeiro nome,
Sou eu usando o nome de um menino morto
Para ganhar um campeonato de poesia,
Eu com a boca cheia dos esqueletos de outras pessoas
Usando-os como me convém.

Privilégio negro é o concreto que prende
Minha respiração melhor que meus próprios pulmões.

Privilégio negro é sempre ter que ser o forte,
É ter um pé-de-cabra como espinha,
É continuar lutando mesmo quando não se tem
Nem mais uma gota de sangue a dar,
Mesmo quando apenas seus ossos o carregaram,
Mesmo quando sua mãe já rezou por você,
Mesmo depois de terem preparado seu corpo
Para o funeral.

Privilégio negro é ser tão único que nem é feito
À imagem e semelhança de Deus.
Privilégio negro é mesmo assim
Ser a primeira pessoa na fila para encontrá-lo.

Privilégio negro é ter o mesmo senso de humor de Jesus.
Lembra como ele sorriu na cruz?
Da mesma forma que Malcolm X riu diante da bala.

E lá vou eu de novo,
Afirmando meu privilégio negro,
Usando o nome de um homem morto sem sua permissão.

Privilégio negro é um mito,
Uma piada,
Uma anedota,
É quando uma professora pergunta a um garotinho
O que ele quer ser quando crescer
E ele diz: “Vivo”.
É a maneira como ela ri quando diz,
“Não há faculdade para isso.”

E é cansativo, sabe?
Que tudo sobre a minha pele seja uma metáfora,
Que tudo que é preto seja um trocadilho,
destinado à morte.

Privilégio negro é o aplauso no final deste poema,
É eu dar a vocês o corpo
De um menino morto e vocês me darem um dez,
E eu ficar bem com isso.

terça-feira, 29 de março de 2022

POEMAS de Lívia Lemos

 

PASSAGEM DE SOM

Ouvi um estalo dilacerado
de fome de vida,
enquanto o céu reluzia
imenso sobre a minha cabeça.
O tempo, foi o tempo
que mapeou o meu corpo
agora.
Como um laço guardado no peito,
Como uma foto amarelada,
na bancada
da padaria onde tomei um café
antes de atravessar a rua,
onde as árvores ao fundo
sussurravam em meus ouvidos:
tudo aconteceria de novo
pela última vez.
...........................
PALCO

Se algum dia a vida desdobrar meu nome
aos campos do mais profundo prado
me lembrarei em vão daquele negro pássaro
escondido e tão à vontade
assobiando em meu ninho de espumas
suas meias inteiras verdades.

E eu só serei uma mulher que tinha
pele, útero, garganta, uma guitarra vazia,
lábios beijando serpentes
atadas aos dedos e ao sopro das asas
por espadas manchadas.

Se algum dia os sinos tocarem meu nome
nos campanários vazios da floresta inundada
eu serei então como tortas ruínas
meu corpo em plumas de gaiolas frias
à força do brilho do velho chapéu
de dor que não me caberá.