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sexta-feira, 27 de maio de 2022

PERFUME - Nazarethe Fonseca

 

Seu perfume ficou na sala,
Mas você partiu.
Fico no trinco da porta.
No telefone que usou distraidamente,

Na caneta com a qual batucou impaciente.
No sofá, nas almofadas,
Onde cansado, adormeceu, enquanto me esperava.
Está sobre meu rosto, pois o acariciou longamente.
Misturou-se ao meu, e da nossa química ficou mais doce.

Espalhou-se pelos lençóis da cama

Como se fosse chuva de verão.
No travesseiro onde dormiu por uma, duas horas.
Em meu corpo que tocou faminto, saudoso.

E enquanto banho, lamento perdê-lo.
Ressinto-me deste desapego,
Enquanto a água cai rápida e mansa,
Eu lembro debaixo do chuveiro,
Penso em nós dois.
No que fizemos,
No prazer que nos demos.
Tudo parece distante agora que se foi.
Que seu perfume abandonou meu corpo.

Quero que a água me lave, me renove.
Deixei-me ficar a sós,
Seu perfume me confunde,
Faz-me desejar você, que já se foi.

Seu toque.
Ainda sinto você.
Está bem aqui em meu peito,
Na marca do beijo invisível sobre o seio.

Em meus dedos que te tocaram.
Em minhas mãos que te afagaram.
O seu perfume se apagou.
E quando pequei o telefone e levei ao ouvi,
Senti seu cheiro no fone, beijei o aparelho.
E desistir da ligação, pois seu cheiro voltou...
E me deu a falsa ilusão de sua presença.
Vou dormir, é quase manhã.
O telefone toca.
É você.
E seu perfume.

terça-feira, 19 de abril de 2022

PRIVILÉGIO NEGRO – Crystal Valentine

 

Tradução de Tom Jones
.........
Privilégio negro é um elefante pendurado na sala
é a memória de um navio negreiro
E eu pedindo a Deus pra ter Alzheimer

Privilégio negro é eu já ter memorizado
O discurso fúnebre do meu sobrinho
E do meu irmão,
E do meu pai,
E do meu filho não concebido.
Privilégio negro é, além disso eu pensar
No nome da minha irmã,
A salvo dessa lista.

Privilégio negro sou eu fingindo
Que tenho intimidade com Trayvon Martin
Pra chamá-lo pelo primeiro nome,
Sou eu usando o nome de um menino morto
Para ganhar um campeonato de poesia,
Eu com a boca cheia dos esqueletos de outras pessoas
Usando-os como me convém.

Privilégio negro é o concreto que prende
Minha respiração melhor que meus próprios pulmões.

Privilégio negro é sempre ter que ser o forte,
É ter um pé-de-cabra como espinha,
É continuar lutando mesmo quando não se tem
Nem mais uma gota de sangue a dar,
Mesmo quando apenas seus ossos o carregaram,
Mesmo quando sua mãe já rezou por você,
Mesmo depois de terem preparado seu corpo
Para o funeral.

Privilégio negro é ser tão único que nem é feito
À imagem e semelhança de Deus.
Privilégio negro é mesmo assim
Ser a primeira pessoa na fila para encontrá-lo.

Privilégio negro é ter o mesmo senso de humor de Jesus.
Lembra como ele sorriu na cruz?
Da mesma forma que Malcolm X riu diante da bala.

E lá vou eu de novo,
Afirmando meu privilégio negro,
Usando o nome de um homem morto sem sua permissão.

Privilégio negro é um mito,
Uma piada,
Uma anedota,
É quando uma professora pergunta a um garotinho
O que ele quer ser quando crescer
E ele diz: “Vivo”.
É a maneira como ela ri quando diz,
“Não há faculdade para isso.”

E é cansativo, sabe?
Que tudo sobre a minha pele seja uma metáfora,
Que tudo que é preto seja um trocadilho,
destinado à morte.

Privilégio negro é o aplauso no final deste poema,
É eu dar a vocês o corpo
De um menino morto e vocês me darem um dez,
E eu ficar bem com isso.