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quarta-feira, 11 de maio de 2022

NAS TRASEIRAS DA CIDADE OCUPADA – Margarida Vale de Gato

 

para a Raquel
[depois de O Silêncio de Ingmar Bergman]

Quando a vimos pela primeira vez
pensámos que já tinha morrido
- a nossa irmã - não prevenindo
que seríamos o que ela fazia.
Nas traseiras da cidade ocupada
batendo à máquina num quarto
cujas janelas todas vedam
uma língua alheia
à que nos habita
a beleza existe
como nunca na desfiguração
moral, no desmaio
da esperança aleijada, excessiva.

É-nos a língua estrangeira cifra
e surto de esquisito consolo.
A crueldade existe
e não fomos nós quem a inventou.
A luxúria existe
e não foi por termos nascido
foi haver fome, incontidos vícios
blindados lábios, cândido calor
embaciado, calar que nada
ouve, é a nossa irmã
que entra no bar de casaco fino
e nós que não prevenimos
o bruto penetrar de corpos
os furos de chumbos repentinos.

Quando a vimos passar o vestíbulo
a entrar para o banho, a descer
o vestido, a exibir ao espelho
as nádegas de escultura
soubemos a partir daí
que a nossa mãe era diferente.
O conflito torce-nos
entre fofas almofadas
uma brancura insuspeita
uma aguda tortura.
Saímos para as traseiras
do quarto, na cidade
ocupada, arma de brincar
na mão, divertindo o dilúvio
no olhar, achando
o bom velho senil
e a caridade existe
mas é assim.
Nós os anões aos pinotes
procuramos o ar

Enquanto o abandono
com pernas esguias e claras
ao apito da locomotiva
marcha nas traseiras
a cidade despe-se
de membros válidos.
Nas traseiras da cidade
no interior das couraças
nos contentores do degredo
vive-se a guerra, travam-se
as mulheres
com suas soluções
de rancor e abrigo.
A infância trilha a solidão
com os passos precisos

terça-feira, 19 de abril de 2022

PRIVILÉGIO NEGRO – Crystal Valentine

 

Tradução de Tom Jones
.........
Privilégio negro é um elefante pendurado na sala
é a memória de um navio negreiro
E eu pedindo a Deus pra ter Alzheimer

Privilégio negro é eu já ter memorizado
O discurso fúnebre do meu sobrinho
E do meu irmão,
E do meu pai,
E do meu filho não concebido.
Privilégio negro é, além disso eu pensar
No nome da minha irmã,
A salvo dessa lista.

Privilégio negro sou eu fingindo
Que tenho intimidade com Trayvon Martin
Pra chamá-lo pelo primeiro nome,
Sou eu usando o nome de um menino morto
Para ganhar um campeonato de poesia,
Eu com a boca cheia dos esqueletos de outras pessoas
Usando-os como me convém.

Privilégio negro é o concreto que prende
Minha respiração melhor que meus próprios pulmões.

Privilégio negro é sempre ter que ser o forte,
É ter um pé-de-cabra como espinha,
É continuar lutando mesmo quando não se tem
Nem mais uma gota de sangue a dar,
Mesmo quando apenas seus ossos o carregaram,
Mesmo quando sua mãe já rezou por você,
Mesmo depois de terem preparado seu corpo
Para o funeral.

Privilégio negro é ser tão único que nem é feito
À imagem e semelhança de Deus.
Privilégio negro é mesmo assim
Ser a primeira pessoa na fila para encontrá-lo.

Privilégio negro é ter o mesmo senso de humor de Jesus.
Lembra como ele sorriu na cruz?
Da mesma forma que Malcolm X riu diante da bala.

E lá vou eu de novo,
Afirmando meu privilégio negro,
Usando o nome de um homem morto sem sua permissão.

Privilégio negro é um mito,
Uma piada,
Uma anedota,
É quando uma professora pergunta a um garotinho
O que ele quer ser quando crescer
E ele diz: “Vivo”.
É a maneira como ela ri quando diz,
“Não há faculdade para isso.”

E é cansativo, sabe?
Que tudo sobre a minha pele seja uma metáfora,
Que tudo que é preto seja um trocadilho,
destinado à morte.

Privilégio negro é o aplauso no final deste poema,
É eu dar a vocês o corpo
De um menino morto e vocês me darem um dez,
E eu ficar bem com isso.