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segunda-feira, 11 de julho de 2022

DOIS POEMAS de Bruno Miquelino

 

POEMA PARA SER LIDO EM VOZ ALTA

A morte traz tudo o que tu precisas
Desde uma brisa que te traz alento
a uma agitação de formas precisas
que faz eternizar o teu momento
em várias suaves poesias concisas

Pois a morfina acalma e sacia a alma,
Sedando o mal que pode aparecer
e pondo o mundo todo na tua palma
para tu veres quem bem é o teu ser

Porém, se a mordaça ude a todos nós e
a nossos males fim rápido traz,
por que resistir ao som de sua voz
que nos chama para sua eterna paz?

O melhor que se faz, pois sendo assim,
é entregar-se àquilo que virá
pois não há nada como ver enfim
que apesar de tanta coisa ruim, há
a morna brisa que nos vêm, pôr fim.
.......
POESIA ÀS MULHERES LINDAS

Quando o mundo vê sua graça em friso
e seu andar preciso, sem notá-lo,
vira vício e vê como um aviso
que em volta de você voeja um halo
que deixa o poeta parvo e conciso e

quando o sorriso invade sua face,
todo o mundo simplesmente para
só para apreciar antes que passe
a magia dessa beleza tão rara.

Mas se o pranto sua face invade e
as lágrimas tombam como setas,
o mundo para ante tal maldade e
a acalma e a torna menos inquieta

Porém, se o tempo vem, e ciumento
se sustenta de sua simpatia,
sai ele sonso e em mais um momento o
mundo de você se delicia

E um dia quando alguém os olhos puser
em você, saberá com certeza
que essa princesa é o que ele quer
Pois não há no mundo maior realeza
que a beleza de uma linda mulher!

quarta-feira, 11 de maio de 2022

NAS TRASEIRAS DA CIDADE OCUPADA – Margarida Vale de Gato

 

para a Raquel
[depois de O Silêncio de Ingmar Bergman]

Quando a vimos pela primeira vez
pensámos que já tinha morrido
- a nossa irmã - não prevenindo
que seríamos o que ela fazia.
Nas traseiras da cidade ocupada
batendo à máquina num quarto
cujas janelas todas vedam
uma língua alheia
à que nos habita
a beleza existe
como nunca na desfiguração
moral, no desmaio
da esperança aleijada, excessiva.

É-nos a língua estrangeira cifra
e surto de esquisito consolo.
A crueldade existe
e não fomos nós quem a inventou.
A luxúria existe
e não foi por termos nascido
foi haver fome, incontidos vícios
blindados lábios, cândido calor
embaciado, calar que nada
ouve, é a nossa irmã
que entra no bar de casaco fino
e nós que não prevenimos
o bruto penetrar de corpos
os furos de chumbos repentinos.

Quando a vimos passar o vestíbulo
a entrar para o banho, a descer
o vestido, a exibir ao espelho
as nádegas de escultura
soubemos a partir daí
que a nossa mãe era diferente.
O conflito torce-nos
entre fofas almofadas
uma brancura insuspeita
uma aguda tortura.
Saímos para as traseiras
do quarto, na cidade
ocupada, arma de brincar
na mão, divertindo o dilúvio
no olhar, achando
o bom velho senil
e a caridade existe
mas é assim.
Nós os anões aos pinotes
procuramos o ar

Enquanto o abandono
com pernas esguias e claras
ao apito da locomotiva
marcha nas traseiras
a cidade despe-se
de membros válidos.
Nas traseiras da cidade
no interior das couraças
nos contentores do degredo
vive-se a guerra, travam-se
as mulheres
com suas soluções
de rancor e abrigo.
A infância trilha a solidão
com os passos precisos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

AFRODITE – Irene Lisboa

 

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstratas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divagadores,
entre si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão sutil
e tão provocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angustias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, dilapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...