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quarta-feira, 1 de junho de 2022

PÁGINA EM BRANCO - Geraldo Peres Generoso

 

O que sugere uma página vazia?
A criança no limbo
Que jamais viu a luz do dia,
Abortada para toda dor
E toda alegria,
Insensível ao ódio ou a qualquer amor.

O que sugere uma página sem escrita?
Se pautada,
Risca-se de linhas perfiladas,
Horizontais, em retas infinitas,
Sem ser fertilizadas
Por frases a nunca ditas.

Qual o significado de uma folha deserta?
A indecisão do poeta
Ou o silêncio do escriba;
Tudo o que vem depois
Das letras de todos os que as escrevem
E passam a manter
O pensamento nas nuvens;
Daquelas nuvens que destilam
A chuva do nunca ser...

sexta-feira, 27 de maio de 2022

PERFUME - Nazarethe Fonseca

 

Seu perfume ficou na sala,
Mas você partiu.
Fico no trinco da porta.
No telefone que usou distraidamente,

Na caneta com a qual batucou impaciente.
No sofá, nas almofadas,
Onde cansado, adormeceu, enquanto me esperava.
Está sobre meu rosto, pois o acariciou longamente.
Misturou-se ao meu, e da nossa química ficou mais doce.

Espalhou-se pelos lençóis da cama

Como se fosse chuva de verão.
No travesseiro onde dormiu por uma, duas horas.
Em meu corpo que tocou faminto, saudoso.

E enquanto banho, lamento perdê-lo.
Ressinto-me deste desapego,
Enquanto a água cai rápida e mansa,
Eu lembro debaixo do chuveiro,
Penso em nós dois.
No que fizemos,
No prazer que nos demos.
Tudo parece distante agora que se foi.
Que seu perfume abandonou meu corpo.

Quero que a água me lave, me renove.
Deixei-me ficar a sós,
Seu perfume me confunde,
Faz-me desejar você, que já se foi.

Seu toque.
Ainda sinto você.
Está bem aqui em meu peito,
Na marca do beijo invisível sobre o seio.

Em meus dedos que te tocaram.
Em minhas mãos que te afagaram.
O seu perfume se apagou.
E quando pequei o telefone e levei ao ouvi,
Senti seu cheiro no fone, beijei o aparelho.
E desistir da ligação, pois seu cheiro voltou...
E me deu a falsa ilusão de sua presença.
Vou dormir, é quase manhã.
O telefone toca.
É você.
E seu perfume.