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terça-feira, 31 de maio de 2022

PENSARES – Clevane Pessoa

 

São meus pensamentos malabares
giram em espirais.
fazem volteios,
como nas guirlandas
que mesclam cipó e fitas
ou em caminhos de seios
contornados por carícias...
São meu pensamentos, cantares
Repetitivos como trinados
De muitos passarinhos
Ou desiguais quais aqueles
Que imitam os vizinhos
Na verdade, os produtos
Dessa minha algaravia
São traduções atávicas
E renascem reinventados
Dos labirintos da alma
Que não quer imitar sons
Que já foram emitidos:
Da siringe, os meus pios
Atingem longas distâncias
Para alcançar os demais...

Meus pensamentos são mares
De muita profundidade,
Mas que rasantes nas areias
Lambem o calor que encontram,
Ajudam a esfriar as orlas
Com suas ondas agitadas...
Às vezes fazem redemoinhos
Em caldeirão perigoso ...
Podem chegar a maremotos,
Em fenômenos encadeados,
Mas a maré esperada
Somente depende dos ciclos
Caprichosos das faces de dona lua...

Meus pensamentos são ninhos
Com ovos sempre a chocar
Esperando ver nascer
Novas vidas a trinar...

Meus pensamentos,
Ramalhetes de rosas
Lama de barro sagrado,
Nascentes e rios,
Fogos de artifício, fogueiras
Estrelas e parafusos...
Tear de tudo, roca e fusos
Artesanato de fitas e vime
Guirlandas de oferendas,
Nuvens macias e prenhes
Para a chuva na seara
Para o choro das pedras
Para o riso das montanhas
Para o grito das cavernas
Meus pensamentos interpretam
Tudo e todos, até a mim
Que apesar de tantas buscam
nem sequer sei quem sou...

quinta-feira, 28 de abril de 2022

EMERGÊNCIAS – Mariana Perna

 

i. Agora se recria

Eu choro o teu nome
pingo os teus dedos.

A gravata de sangue
que não pode me pertencer.
As unhas de seda
que tudo podem tecer
hoje já formam rios
alfabetos.

Criam
levam adiante
de volta
e o que a mim não pertence
me perpassa, vai embora.
Deixa seu novo nome
pela areia…

Perplexa

Apenas observo, de dentro do automóvel.

ii. Ela está no meio de nós

Há uma voz que vem das montanhas
Há uma força que nos acompanha
E grita o seu silêncio
Por cima de todo este caos.

Uma poesia que reina sobre a sujeira

Infinita, absoluta.

Eu padecerei
Você, também
Mas ela continuará a soar
através dos tempos
Invencível, correndo com os ventos
mesmo quando tudo terminar.

Será levada de mão em mão

Até chegar ao topo
Do mais alto morro,
onde tudo começou.

domingo, 17 de abril de 2022

POEMAS de Adelmo Oliveira

 

I – O SILÊNCIO

Se eu pudesse escrever o silêncio
Criaria uma nova língua
– Uma gramática de signos
Signos a compor um espaço do nada

Se eu pudesse escrever o silêncio
Viajaria no deserto
Consumindo distâncias e miragens
Para decifrar o segredo

Se eu pudesse escrever o silêncio
A imagem nasceria atrás do espelho
– A morte falaria
E em seu redor não cresceria a ferrugem do tempo
.............
II – OS DELÍRIOS

Expulsem de mim os delírios
A Terra foi varrida por um turbilhão de ódios
– As veias extravasam músculos
E mancham de sangue as cortinas
deste palco

Venho do genoma na cadeia de milênios
E tudo que sou e sempre do que fui nunca serei
– Homem-Enigma eu me dissolvo em pó de argila
Regido pelo terror dos céus e pela angústia
do acaso

E vede amigos que até rio do brilho do sol
Para quebrar a morbidez da lua
– A história é tão sinistra que se oculta atrás da porta
Onde o grito da metáfora transpõe o ritmo
dos astros

Expulsem de mim os delírios
– Sou um átomo de luz nas trevas
A tropeçar em vão no chão das horas
Que repetidas se propagam na vastidão
do nada
..............
III – A MORADA

Minha morada são os caminhos
– Nas cidades fico à sombra dos parques
– Nos ermos à beira dos rios
– Nas montanhas sou pastor de solidão

À noite entro na casa dos delírios
Onde os sonhos se esvoaçam
E o terror é causado no cérebro
Pela vertigem da Via-Láctea

A manhã põe em fuga as andorinhas
Que vão desaparecer no crepúsculo
– A porta do céu não é o paraíso
Onde queimo os pés nas pedras do caminho