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terça-feira, 31 de maio de 2022

PENSARES – Clevane Pessoa

 

São meus pensamentos malabares
giram em espirais.
fazem volteios,
como nas guirlandas
que mesclam cipó e fitas
ou em caminhos de seios
contornados por carícias...
São meu pensamentos, cantares
Repetitivos como trinados
De muitos passarinhos
Ou desiguais quais aqueles
Que imitam os vizinhos
Na verdade, os produtos
Dessa minha algaravia
São traduções atávicas
E renascem reinventados
Dos labirintos da alma
Que não quer imitar sons
Que já foram emitidos:
Da siringe, os meus pios
Atingem longas distâncias
Para alcançar os demais...

Meus pensamentos são mares
De muita profundidade,
Mas que rasantes nas areias
Lambem o calor que encontram,
Ajudam a esfriar as orlas
Com suas ondas agitadas...
Às vezes fazem redemoinhos
Em caldeirão perigoso ...
Podem chegar a maremotos,
Em fenômenos encadeados,
Mas a maré esperada
Somente depende dos ciclos
Caprichosos das faces de dona lua...

Meus pensamentos são ninhos
Com ovos sempre a chocar
Esperando ver nascer
Novas vidas a trinar...

Meus pensamentos,
Ramalhetes de rosas
Lama de barro sagrado,
Nascentes e rios,
Fogos de artifício, fogueiras
Estrelas e parafusos...
Tear de tudo, roca e fusos
Artesanato de fitas e vime
Guirlandas de oferendas,
Nuvens macias e prenhes
Para a chuva na seara
Para o choro das pedras
Para o riso das montanhas
Para o grito das cavernas
Meus pensamentos interpretam
Tudo e todos, até a mim
Que apesar de tantas buscam
nem sequer sei quem sou...

domingo, 6 de março de 2022

ARROIO DE SOLIDÕES - André Pieyre de Mandiargues

 

Tradução de William Zeytounlian
............
Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja
Só
E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

quarta-feira, 2 de março de 2022

VERSOS de Antônio Carlos Gomes

 

DELÍRIOS

Que não quer pertencer ao barro
Ao qual atribui sujeira
E a mente. Toda desnuda
Despe a redondeza
Com as fantasias deformadas
De viver sem beira nem eira
Na estrada nunca acabada.
..........................
REBULIÇO

Às vezes
O grande defeito
É não ter defeitos.
Apenas
Seguir a toada morna
Da lógica do viver
E, pensar

Caminhar
Prevendo o futuro
Para não cair no escuro
De se desencontrar.

Seguir na terra firme
Sabendo onde pisar
Mas,
Se enganar com o mundo
Este reino que vive
Em total rebuliço
Onde nada está escrito
Não existe um lugar
Seguro para caminhar.
.............................
2012

Sociedade de mortais
Todos viventes são iguais.

A sociedade humana
O homem inventou
Ele próprio complicou.

Sendo todos iguais
Temos que ser imortais
Ter o nome nos jornais.

Para compensar a finitude
Temos que ter atitude.
Pelo menos por um instante
Devemos ser importantes.

Rei de Espanha é importante
Matou um elefante...
.............................
RETORNO E RETRATO

Não jogues fora meu retrato,
Não adianta, não vai adiantar,
Não é por desfeito nosso trato
Que vai o amor assim terminar.

A brasa fica sempre acesa
Pronta a de repente incendiar
Se não tem face, com certeza:
Novamente outra irá formar.

Não creia que este rosto apagado
Jamais irá ressuscitar
A fera em bote calculado
Certeira vai recapturar.

Ponha perfis num relicário
A foto e momentos de amar
Que passada a dor do calvário
Por certo irei te procurar.