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sábado, 14 de maio de 2022

POEMAS de Ana Hatherly

 

QUE É VOAR?

Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
.......
AUTO-RETRATO

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em ato,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.
.......
O CÍRCULO

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
.......
SEM AMOR

Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo

É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou 

Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem

quarta-feira, 13 de abril de 2022

COMER COM DOIS GARFOS - Carla Diacov


 eu gosto muito de você
você tem um rosto bom
dois olhos no lugar correto
a boca que se movimenta quando
é perguntada
seu nariz tem a pontinha toda luminosa
suas maçãs são rosadas e no tamanho perfeito
para o seu tipo de rosto perfeito
seus ombros me dizem coisas bonitas
o espaço entre eles é bonito e cabível
gosto quando você separa os joelhos
só para juntar os joelhos de volta
seu pé esquerdo é inquieto e o direito
foi contaminado pelo esquerdo
parece
em sapatos corretos isso é perfeitamente
contornável
seus mindinhos são tortos
mas isso é tão bonito quanto as luvas que te dei
sua memória é seletiva
mas conto com sua boca dócil
gosto de você assim
e assim porque assim você é linda
porque você é linda porque você é meiga
porque cabe atrás da minha orelha
da minha história
do meu casaco
da minha mãe
do meu currículo do meu retrato na escolinha tia Shush
porque cabe atrás da minha orelha
como um cigarro como uma menina com uma flor

sexta-feira, 4 de março de 2022

DOIS POEMAS de Manoel Carlos Gonçalves de Almeida

 

NATUREZA-MORTA

O vaso sobre a mesa.
Quantas limitações em seu contorno.
No entanto livre foi e já conteve
a experiência das mãos em sua argila.
Livre foi sob pés - livres os pés,
água, barro, travessia. Dura matéria
sem profecia do seu frágil destino.
Mas como recebê-lo em meu convívio
se hoje é vaso e repousa sobre a mesa,
made in Japan selando seus desígnios?
Melhor fora encontrá-lo quando, gesso,
pretendeu ser adorno seu gerente,
pois ensinado teria - mais que forma -
a aspiração à forma. E isto é tudo.
.......................
PRIMEIRO

O mais foi anjo ou essência de sê-lo
ou vago esbarro entre cal e vapor.
Tato de espuma e caldo em seu desvelo,
retrato de uma nuvem em seu furor.

O mais, antes de mim, atado ao pelo
da emoção. Caça ao anjo viajor
em seu cardume. Segue em seu andor
dentro de mim: anúncio, placa, selo.

Peixe mais do que pássaro. Içado e morto.
Estilizado em signo de março,
gerado de um perfil amargo e torto.

Desordem neste trauma em que me esgarço.
Vício de anjo, solidão de morto,
navio que já em si ancora um porto.

quarta-feira, 2 de março de 2022

VERSOS de Antônio Carlos Gomes

 

DELÍRIOS

Que não quer pertencer ao barro
Ao qual atribui sujeira
E a mente. Toda desnuda
Despe a redondeza
Com as fantasias deformadas
De viver sem beira nem eira
Na estrada nunca acabada.
..........................
REBULIÇO

Às vezes
O grande defeito
É não ter defeitos.
Apenas
Seguir a toada morna
Da lógica do viver
E, pensar

Caminhar
Prevendo o futuro
Para não cair no escuro
De se desencontrar.

Seguir na terra firme
Sabendo onde pisar
Mas,
Se enganar com o mundo
Este reino que vive
Em total rebuliço
Onde nada está escrito
Não existe um lugar
Seguro para caminhar.
.............................
2012

Sociedade de mortais
Todos viventes são iguais.

A sociedade humana
O homem inventou
Ele próprio complicou.

Sendo todos iguais
Temos que ser imortais
Ter o nome nos jornais.

Para compensar a finitude
Temos que ter atitude.
Pelo menos por um instante
Devemos ser importantes.

Rei de Espanha é importante
Matou um elefante...
.............................
RETORNO E RETRATO

Não jogues fora meu retrato,
Não adianta, não vai adiantar,
Não é por desfeito nosso trato
Que vai o amor assim terminar.

A brasa fica sempre acesa
Pronta a de repente incendiar
Se não tem face, com certeza:
Novamente outra irá formar.

Não creia que este rosto apagado
Jamais irá ressuscitar
A fera em bote calculado
Certeira vai recapturar.

Ponha perfis num relicário
A foto e momentos de amar
Que passada a dor do calvário
Por certo irei te procurar.