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quinta-feira, 2 de junho de 2022

DOIS POEMAS de Edson Cruz

 

ARCANOS

escavar a memória cósmica
dos homens
e fazer a arqueologia
de uma possível eternidade.

recuperar aquela mística cintilação
que se apagou
e desbaratar a teia que enreda
todos os segredos.

despertar a alma que viaja
cega e inconsciente
e torná-la plena anfitriã
deste momento.
.......
CIDADE IMAGINÁRIA

a busca principia e se finda no coração
na longa jornada, dia a dia, se oficia
e ao final nos brinda com a claridão

no meio do caminho de minha vida
viajante que sou por sendas selváticas
ouço falar de cidade tão querida

com dadivosos tesouros e benefícios enfáticos
sua existência – nutriente da procura
leva-me adiante em ofício tão errático

encontrá-la, amacia o ferro-vida que perdura
habitá-la, ultrapassa o mundo-lida já tão lábil
desposá-la, é a felizcidade em tessitura

se até aqui nada me havia sido fácil
agora verei do que realmente o laço é feito
em nada me adiantou ter sido hábil

tal estrada abriga horrores em seu leito
terríveis desertos, terra inóspita e dardejante
falta-me ar, me dá sede, a derrota arde-me no peito

corpo em espírito antes tão flamejante
arrefece exausto e amedrontado foge
– chega de tempestades e sol escaldante!

queria eu estar nesta hora que consome
a reviver instantes da memória
lugares que vivi e o deleite que me some

porém, o sábio mestre da vitória
com hábeis meios de uma melodia
soa o canto que nos leva à possível glória

aquele que conhece o caminho – o guia
presença que em si é a ênfase do tesouro
disciplina o ser e as almas fugidias

em meio ao sofrimento vislumbro o ouro
a imensidão do desejo em seu oásis
a alegria reluzente, as dores em sumidouro

o cansaço esvanece – um desenho a lápis
os contornos da dor desaparecem na fumaça
tudo esqueço, retornar ou desistir – jamais!

sob meus pés a exuberância se enlaça
revela-se íntegra uma cidade tão fantástica
o paraíso em delícias nos perpassa

o mestre, com sua voz sonora e dramática
diz que não, estávamos no meio da jornada
a cidade é imaginária, pura névoa carmática

domingo, 15 de maio de 2022

POEMAS de Fernando Pessoa (ortônimo)

 

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
.......
A LUA (DIZEM OS INGLESES)

A Lua (dizem os Ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.

Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os Ingleses)
É azul de quando em quando.
.......
ALGA

Paira na noite calma
O silêncio da brisa...
Acontece-me à alma
Qualquer coisa imprecisa...

Uma porta entreaberta...
Um sorriso em descrença...
Uma ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sonha, duvida, elevo-a
Até quem me suponho
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho...
.......
ANÁLISE

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco‑os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter‑me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Do sonho e pouco da vida.
.......
À NOITE

O silêncio é teu gêmeo no Infinito.
Quem te conhece, sabe não buscar.
Morte visível, vens dessedentar
O vago mundo, o mundo estreito e aflito.

Se os teus abismos constelados fito,
Não sei quem sou ou qual o fim a dar
A tanta dor, a tanta ânsia par
Do sonho, e a tanto incerto em que medito.

Que vislumbre escondido de melhores
Dias ou horas no teu campo cabe?
Véu nupcial do fim de fins e dores.

Nem sei a angústia que vens consolar-me.
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!
.......
CANÇÃO TRISTE

Sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por qual caminho?

Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!

Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.

Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!

Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.

quarta-feira, 2 de março de 2022

VERSOS de Antônio Carlos Gomes

 

DELÍRIOS

Que não quer pertencer ao barro
Ao qual atribui sujeira
E a mente. Toda desnuda
Despe a redondeza
Com as fantasias deformadas
De viver sem beira nem eira
Na estrada nunca acabada.
..........................
REBULIÇO

Às vezes
O grande defeito
É não ter defeitos.
Apenas
Seguir a toada morna
Da lógica do viver
E, pensar

Caminhar
Prevendo o futuro
Para não cair no escuro
De se desencontrar.

Seguir na terra firme
Sabendo onde pisar
Mas,
Se enganar com o mundo
Este reino que vive
Em total rebuliço
Onde nada está escrito
Não existe um lugar
Seguro para caminhar.
.............................
2012

Sociedade de mortais
Todos viventes são iguais.

A sociedade humana
O homem inventou
Ele próprio complicou.

Sendo todos iguais
Temos que ser imortais
Ter o nome nos jornais.

Para compensar a finitude
Temos que ter atitude.
Pelo menos por um instante
Devemos ser importantes.

Rei de Espanha é importante
Matou um elefante...
.............................
RETORNO E RETRATO

Não jogues fora meu retrato,
Não adianta, não vai adiantar,
Não é por desfeito nosso trato
Que vai o amor assim terminar.

A brasa fica sempre acesa
Pronta a de repente incendiar
Se não tem face, com certeza:
Novamente outra irá formar.

Não creia que este rosto apagado
Jamais irá ressuscitar
A fera em bote calculado
Certeira vai recapturar.

Ponha perfis num relicário
A foto e momentos de amar
Que passada a dor do calvário
Por certo irei te procurar.