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terça-feira, 24 de maio de 2022

CHULA DA RENDEIRA – Roberto Pontes

Na ponta dos teus dez dedos
tem uma perna de fio
de fio feito de nata

e bilros que vão batendo
a toada da matraca.

A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.

Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.

Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.

Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.

Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.

Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

VERSOS de Antônio Carlos Gomes

 

DELÍRIOS

Que não quer pertencer ao barro
Ao qual atribui sujeira
E a mente. Toda desnuda
Despe a redondeza
Com as fantasias deformadas
De viver sem beira nem eira
Na estrada nunca acabada.
..........................
REBULIÇO

Às vezes
O grande defeito
É não ter defeitos.
Apenas
Seguir a toada morna
Da lógica do viver
E, pensar

Caminhar
Prevendo o futuro
Para não cair no escuro
De se desencontrar.

Seguir na terra firme
Sabendo onde pisar
Mas,
Se enganar com o mundo
Este reino que vive
Em total rebuliço
Onde nada está escrito
Não existe um lugar
Seguro para caminhar.
.............................
2012

Sociedade de mortais
Todos viventes são iguais.

A sociedade humana
O homem inventou
Ele próprio complicou.

Sendo todos iguais
Temos que ser imortais
Ter o nome nos jornais.

Para compensar a finitude
Temos que ter atitude.
Pelo menos por um instante
Devemos ser importantes.

Rei de Espanha é importante
Matou um elefante...
.............................
RETORNO E RETRATO

Não jogues fora meu retrato,
Não adianta, não vai adiantar,
Não é por desfeito nosso trato
Que vai o amor assim terminar.

A brasa fica sempre acesa
Pronta a de repente incendiar
Se não tem face, com certeza:
Novamente outra irá formar.

Não creia que este rosto apagado
Jamais irá ressuscitar
A fera em bote calculado
Certeira vai recapturar.

Ponha perfis num relicário
A foto e momentos de amar
Que passada a dor do calvário
Por certo irei te procurar.