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terça-feira, 22 de março de 2022

QUATRO SONETOS de Gláucia Lemos

 

DIREÇÃO

A febre que se esconde sem seu grito
nenhum bardo alcançou.
Nenhum passo caleja a meu encontro,
nem palavra debruça no meu cio.

Meu caminho é agora, lá na frente
ninguém respira. Há álamos sombrios.
Eu sou caudal de rio intermitente.
Cais não conheço nem arrasto amores.

Leva-me onde for, solta, a corrente.
Meu leme é minha mão, meu lume, estrela,
meu destino é aqui, ali, alhures.

Roteiro e direção não tenho escritos,
nem me comanda voz, nem prende o pulso.
Vou aonde o olho pise, e o pé alcance.
....................
PITUBA

Este meu bairro à noite é como um rio,
faróis correndo pelo asfalto morto,
águas em luzes, ondulado fio
buscando algum indefinido porto.

Guardas imensos feitos de cimento
curvas cabeças vítreas em neon,
do alto interrogam dos que vão no leito
aonde irão tantos com tamanho afã.

Este meu bairro à noite, criança insone,
contempla outros insones que a contemplam
da solidão dos seus sonhares breves.

A madrugada em ruídos se consome,
e o bairro inteiro se espreguiça tenso,
no despertar do sono que não teve.
....................
PERSONA

Explicar-te a loucura como, irmã?
Já te sentir tão pura me é culpável.
Carrego teu andor na escura trilha
que a cilha de amargura impõe de resto.

Beijo-te o beijo como amante impura.
Que me possuis em aberrante incesto.
Nasci contigo em cruel xipofagia
e és a mesma agonia que sou eu.

Irmã Novasaudade, que a persona
grega me assomas a meu rosto adulto,
nela te oculto em cênicos esgares.

Ora, qual ontem, mísera, me talhas,
soluças nas migalhas do que sinto
e eu te desminto sem poder negar-te.
...................
NA HORA DO SONO

Amar é como andar por entre facas.
A mão de sal no meu olhar de areia.
Poder levar à boca um beijo azul,
sorrir com dentes verdes e morrer.

Calcino a minha febre primitiva
na boca esquiva e negra das noturnas.
Agudo o anseio retalhando o ventre,
e o vácuo espaço qual o olho do abismo.

Todos os contos líricos morreram.
Em ti a esfinge canta um canto branco,
sereia em barco de um Caronte músico.

Amar-te é andar incólume entre facas.
Eros folheia um livro em minha cama
até rasgar-se a folha derradeira.

quarta-feira, 16 de março de 2022

SOS – Rafael Rocha

Do livro “Farol” (2019)
...............
“Onde estamos? Onde é o porto pacífico?”
“Onde veremos as lindas mulheres?”
“Onde veremos homens de intelecto?”


O grande navio observa o litoral da terra.
Seus oficiais querem saber sobre o lugar.
O cais seguro.
O atracadouro primordial.

“Que terra é aquela?”
“Que terra é aquela de homens tristes?”
“Que terra é aquela de mulheres acorrentadas?”
“Que terra é aquela com crianças catequizadas
por um livro negro de um deus nefasto?”


Pelo binóculo o primeiro oficial olha a terra.
Sente medo e terror do que está a observar:
– Homens, mulheres, crianças zumbis
adorando o deus do nada.

“Marujos! Carreguem as armas!
Estamos em um lugar perverso e estranho!
Temos de preservar nossas vidas!”


Cai a noite...
O grande navio lançou âncoras ao largo!
Seus tripulantes esperam um sinal de luz!
Todos sabem: o perigo ronda a embarcação
e as ondas das tormentas podem jogar a nave
nas profundezas abissais do grande mar.

“O que é aquilo?”
“O que estamos a ver?”


Oficiais e marinheiros se reúnem no convés
e põem os olhos no pedido SOS da luz do farol.
Do alto de uma colina ela pede misericórdia
e grita aos quatro ventos sua vida martirizada.

“Marinheiros! Levantar âncora! Vamos partir!
Essa terra é de loucos e de insanos!
Essa terra é o habitat da enganação!
E ainda que existam seres bons e melhores
eles precisam aprender na própria pele
os erros que os levaram a essa perdição”.


E a luz do farol continua piscando o morse: 

Save Our Souls
Save Our Souls
Save Our Souls

sexta-feira, 4 de março de 2022

DOIS POEMAS de Manoel Carlos Gonçalves de Almeida

 

NATUREZA-MORTA

O vaso sobre a mesa.
Quantas limitações em seu contorno.
No entanto livre foi e já conteve
a experiência das mãos em sua argila.
Livre foi sob pés - livres os pés,
água, barro, travessia. Dura matéria
sem profecia do seu frágil destino.
Mas como recebê-lo em meu convívio
se hoje é vaso e repousa sobre a mesa,
made in Japan selando seus desígnios?
Melhor fora encontrá-lo quando, gesso,
pretendeu ser adorno seu gerente,
pois ensinado teria - mais que forma -
a aspiração à forma. E isto é tudo.
.......................
PRIMEIRO

O mais foi anjo ou essência de sê-lo
ou vago esbarro entre cal e vapor.
Tato de espuma e caldo em seu desvelo,
retrato de uma nuvem em seu furor.

O mais, antes de mim, atado ao pelo
da emoção. Caça ao anjo viajor
em seu cardume. Segue em seu andor
dentro de mim: anúncio, placa, selo.

Peixe mais do que pássaro. Içado e morto.
Estilizado em signo de março,
gerado de um perfil amargo e torto.

Desordem neste trauma em que me esgarço.
Vício de anjo, solidão de morto,
navio que já em si ancora um porto.