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quarta-feira, 16 de março de 2022

SOS – Rafael Rocha

Do livro “Farol” (2019)
...............
“Onde estamos? Onde é o porto pacífico?”
“Onde veremos as lindas mulheres?”
“Onde veremos homens de intelecto?”


O grande navio observa o litoral da terra.
Seus oficiais querem saber sobre o lugar.
O cais seguro.
O atracadouro primordial.

“Que terra é aquela?”
“Que terra é aquela de homens tristes?”
“Que terra é aquela de mulheres acorrentadas?”
“Que terra é aquela com crianças catequizadas
por um livro negro de um deus nefasto?”


Pelo binóculo o primeiro oficial olha a terra.
Sente medo e terror do que está a observar:
– Homens, mulheres, crianças zumbis
adorando o deus do nada.

“Marujos! Carreguem as armas!
Estamos em um lugar perverso e estranho!
Temos de preservar nossas vidas!”


Cai a noite...
O grande navio lançou âncoras ao largo!
Seus tripulantes esperam um sinal de luz!
Todos sabem: o perigo ronda a embarcação
e as ondas das tormentas podem jogar a nave
nas profundezas abissais do grande mar.

“O que é aquilo?”
“O que estamos a ver?”


Oficiais e marinheiros se reúnem no convés
e põem os olhos no pedido SOS da luz do farol.
Do alto de uma colina ela pede misericórdia
e grita aos quatro ventos sua vida martirizada.

“Marinheiros! Levantar âncora! Vamos partir!
Essa terra é de loucos e de insanos!
Essa terra é o habitat da enganação!
E ainda que existam seres bons e melhores
eles precisam aprender na própria pele
os erros que os levaram a essa perdição”.


E a luz do farol continua piscando o morse: 

Save Our Souls
Save Our Souls
Save Our Souls

quinta-feira, 10 de março de 2022

NAUFRÁGIO – Rafael Rocha

 

Do livro “Farol” (2019)
............
Mulher:
Sinta na pele
a loucura da paixão.
Misture o real
com a ilusão.
Abra os braços
para o amor voltar.

Ao me abraçar
sinta como dói
uma ausência
e de mal a pior
tome ciência:
o caos que dessa dor
pode sobrar.

Mulher:
Tome cuidado
ao dizer não!
Um homem
também tem coração
e medo
de sempre ficar só.

Então
se você quer
apenas confundir
diga de vez o que vai
sobrar pra mim.
Não deixe
a vida virar pó.

Eu sei!
Quando
a paixão se transformar
na cruel incerteza
de amar
é difícil do alto-mar
ver o farol.

Eu sei!
Você tem medo
das ondas desse mar
e que nelas
você possa se afogar
pois seu amor é lua
não é sol.

Sim!
Quer ficar livre
da cruel paixão
do que acha ser amor
e é ilusão
perdida
em um cais vazio.

Não!
Você não quer
ver a vida naufragar.
Quer fugir
desse tenebroso mar
e voltar a navegar
o antigo rio.

sexta-feira, 4 de março de 2022

DAMA FÚNEBRE – Rafael Rocha

 

Do livro “Farol” (2019)
......
O que pode um farol
quase no centro da terra
iluminar e prevenir
se os abismos oceânicos
causam mortes trágicas?

O grande navio singra por águas tormentosas.
Marinheiros falam de cautela
e da busca da luz real.
Eles desconfiam das claridades cinzentas
dos faróis das ilhas do ódio.

As promessas de novos atracadouros
são parecidas com as ruínas
das escadas milenares e carcomidas
dos velhos castelos medievais.
Homicidas erguem bandeiras de aço
e apagam a luz do grande farol.

Há quem no imenso mar
comande o navio em berço esplêndido,
ainda que uma dama fúnebre
cega e maquiavélica
acate falcatruas sob a luz cinza
vinda dos faróis das ilhas do rancor.

A dama cega vai e vem e vem e vai
numa dança vampiresca no oceano.
Faz promessas de justiça
e de iluminação de astros.
Cria um deus onisciente para adoração
quando não existe um deus.

O que tantos marujos do grande barco
foram buscar
mergulhando nas profundezas abissais?
– Esperanças eivadas de mentiras!
– Falsos tesouros jorrando dos baús
(de hora em hora)
(de minuto em minuto)
(de segundo em segundo)
lágrimas de sangue e de terror!

A dama cega envolve suas mãos
cheias de garras
(frias/fúnebres mãos)
às de um falso messias
que se faz de salvador.
E nua
– totalmente nua –
dança na noite
levando as ondas dos psicopatas ao mar.

Alça voo e com asas de grande morcego
esconde a luz do verdadeiro farol
para o imenso barco despencar no abismo
sob seu canto funéreo e maldito.