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sábado, 30 de abril de 2022

POEMAS de Sílvio Roberto Santos

 

VÉRTICE

Há flores triangulares
que não vivem de sugar o sol.
Brotam cotidianas em qualquer quintal.
Seu néctar, sal que cheira à vida.
De cor vária são tais flores.
Dissimuladas,
conduzem o segredo existencial.
Diminutas, ofuscam.
Percebidas, atormentam.
Inexistentes, devoram.
Dessas flores o perfume tem diversas faces
em pétala única.
No decorrer das noites, escorrem doces
num movimento definitivo,
e, furtivas, ouvem o crepitar humano.
Em manhãs assépticas, surgem renovadas
nos galhos plásticos do varal,
e quase são pássaros.
..........
CONTINGÊNCIA

Chegas, e estás vestida de alegria
para uma festa em que serei silêncio...
Tua proximidade aquece e vence o
tempo nu, nesta noite tão vazia...

E chegas para não ficar — sabemos.
Assim a vida molda os desencontros
e vamos nos perdendo nos encontros
onde é urgente o que jamais vivemos...

Partes, e minha dor mais escurece
estas horas imóveis... Tua ausência
um pouco de perfume mais acresce...

Espera-te, feliz, alguém à frente...
E porque poderias sem urgência
Ficar, partindo ficas permanente...

quinta-feira, 10 de março de 2022

NAUFRÁGIO – Rafael Rocha

 

Do livro “Farol” (2019)
............
Mulher:
Sinta na pele
a loucura da paixão.
Misture o real
com a ilusão.
Abra os braços
para o amor voltar.

Ao me abraçar
sinta como dói
uma ausência
e de mal a pior
tome ciência:
o caos que dessa dor
pode sobrar.

Mulher:
Tome cuidado
ao dizer não!
Um homem
também tem coração
e medo
de sempre ficar só.

Então
se você quer
apenas confundir
diga de vez o que vai
sobrar pra mim.
Não deixe
a vida virar pó.

Eu sei!
Quando
a paixão se transformar
na cruel incerteza
de amar
é difícil do alto-mar
ver o farol.

Eu sei!
Você tem medo
das ondas desse mar
e que nelas
você possa se afogar
pois seu amor é lua
não é sol.

Sim!
Quer ficar livre
da cruel paixão
do que acha ser amor
e é ilusão
perdida
em um cais vazio.

Não!
Você não quer
ver a vida naufragar.
Quer fugir
desse tenebroso mar
e voltar a navegar
o antigo rio.