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terça-feira, 31 de maio de 2022

A VOZ CONFEDERADA – Luciano Maia

 

A Jaci Bezerra, poeta confederado
.......
Vou soltar o meu canto conflagrado
e acender no meu pátio uma fogueira,
nos caminhos da Terra içar bandeira
com o emblema de um povo alevantado.
Em meu peito o brasão confederado
ainda brilha qual lábaro inconteste;
minha crença de uma aura se reveste
dando fé da coragem de Tristão,
que por mor do relembro é encarnação
da bravura do povo do Nordeste.

Não me iludo com vozes nem acenos
que do nosso caráter nada sabem;
para que essas falácias já se acabem
e que os nossos enganos sejam menos,
revivamos valores que são plenos
do que é nosso e devera que nos preste.
Arco-íris ao sol, lume celeste,
cruz no branco de praia desatada:
nossa voz será voz confederada
no adjunto do povo do Nordeste.

Entranhável país, presente rico
de passado onde o tempo une de longe
a canuta expressão do Velho Monge
à silhueta ancestral do Velho Chico.
Em seu canto e fulgor me fortifico
com seu mar, seu sertão, seu solo agreste;
de água e tempo se cose a sua veste
na garoa de prata em Garanhuns
e no ouro do sol dos Inhamuns
que colorem e nutrem meu Nordeste

domingo, 13 de março de 2022

POEMAS de Jorge Tufic

 

CARTAGO FUI EU

Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.

Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.

Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.

Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.
............................
O DESENCONTRO

Uma folha tremula
sobre o branco aflitivo dos garfos.

Passado & futuro
são fronteiras de aragem.

Formigas saem das tocas
ganham asas de louça.

Cristais se fundem
no brinde sem eco.
......................................
FRAGMENTO

À tarde e à noite
o poeta está ausente.
Relógio e calendário
ficaram do avesso.
Ele usa a frequência dos búzios
e capta as notícias que envelhecem
antes da letra e do chumbo.

Percebe, então, que falta um elo
para cada coisa.

Possivelmente indecifrável.
.....................................
PROSPECÇÃO

Ninguém te vê.
Só os ventos te penetram.

Ninguém que esteja saciado
ou faminto
necessita de ti.

Neste exato sem nome
reintegra-te à nuvem que passa
e ao canto das aves.

o poeta, já o disse,
é um ser transparente.

Invicto. Desnecessário
entre porcos, hienas
e outros viventes

solidariamente incompletos.

sexta-feira, 4 de março de 2022

DAMA FÚNEBRE – Rafael Rocha

 

Do livro “Farol” (2019)
......
O que pode um farol
quase no centro da terra
iluminar e prevenir
se os abismos oceânicos
causam mortes trágicas?

O grande navio singra por águas tormentosas.
Marinheiros falam de cautela
e da busca da luz real.
Eles desconfiam das claridades cinzentas
dos faróis das ilhas do ódio.

As promessas de novos atracadouros
são parecidas com as ruínas
das escadas milenares e carcomidas
dos velhos castelos medievais.
Homicidas erguem bandeiras de aço
e apagam a luz do grande farol.

Há quem no imenso mar
comande o navio em berço esplêndido,
ainda que uma dama fúnebre
cega e maquiavélica
acate falcatruas sob a luz cinza
vinda dos faróis das ilhas do rancor.

A dama cega vai e vem e vem e vai
numa dança vampiresca no oceano.
Faz promessas de justiça
e de iluminação de astros.
Cria um deus onisciente para adoração
quando não existe um deus.

O que tantos marujos do grande barco
foram buscar
mergulhando nas profundezas abissais?
– Esperanças eivadas de mentiras!
– Falsos tesouros jorrando dos baús
(de hora em hora)
(de minuto em minuto)
(de segundo em segundo)
lágrimas de sangue e de terror!

A dama cega envolve suas mãos
cheias de garras
(frias/fúnebres mãos)
às de um falso messias
que se faz de salvador.
E nua
– totalmente nua –
dança na noite
levando as ondas dos psicopatas ao mar.

Alça voo e com asas de grande morcego
esconde a luz do verdadeiro farol
para o imenso barco despencar no abismo
sob seu canto funéreo e maldito.