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sexta-feira, 13 de maio de 2022

UM SENTIDO LÓGICO DO ILÓGICO - Patricia Peterle

 

para Giorgio

É verdade não importa a distância.
Hoje nos reencontramos e você sabe
um pouco de ti carrego comigo:
óculos e bigode não podem faltar.

O cheiro do filé de bacalhau frito de Santa Barbara
se mistura ao sabor das alcachofras
um lançamento de livro parada no lago Bracciano
e um aperitivo
afinidades siderais não passam
com o passar das estações
como a perspectiva da cidade se renova
garupa rasante em carros e monumentos
viagens num punhado tomado da lembrança.

Lembrança desejo irrompente quando
as baterias do controle se tornam mais fracas.

Aqui a distância não importa nada
as regras do jogo são outras
não sabemos
as inventamos
hoje nos reencontramos na praia
vestes elegantes num jogo sem sentido
sem sentido lógico sentindo a areia e
as nossas vozes que se falavam por números
alógicos. Você dizia 26 e eu respondia 12
você 234 e eu 71. Subterrâneos cinzéis
ampulhetas infindáveis
precipícios de um sonho.

É verdade a distância não importa.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

QUEM SOU EU? – Vânia Moreira Diniz

Quem sou eu que não me enxergo,
Nessa luz rasa e fracamente difusa,
Quem sou que não me encontro
E nunca entendo o que se passa?

Quem sou eu a caminhar pensativa,
Procurando entender minha alma,
Penetrando em sinuosos caminhos,
E tentando não cair naquele abismo?

Quem sou eu que não compreende,
Esse momento estranho tão rude,
A agredir meu sentimentos,
Quem sou eu afinal?

Quem sou eu a olhar no infinito,
Procurar nas estrelas a minha luz,
Pedir a lua que me devolva os segredos,
E me deite na areia da minha praia?

Que sou eu, que procuro o inexistente,
Pede que aqui ele me busque,
Indicando-me a estrada sinuosa,
Que nem sei por onde passa?

Quem sou eu, que não me reconheço,
Não entendo o que digo ou faço,
Entre mistérios não me atento,
E assim entre quedas prossigo?

Quem sou eu? Quem sou eu,
Que não me reconheço?
Que de longe contemplo,
E digo para sempre que não quero?

Quem sou eu sem tamanha lucidez,
Cujo olhar não atinge nem penetra,
O horizonte que antes eu via,
E me parece tão estranho e distante?
Quem sou eu?

domingo, 1 de maio de 2022

POEMAS DE Sílvia Chueire

 

MAR

cola a tua boca
no mar que sou
o sal e as ondas

derramadas.

ouves o marulhar
na respiração ritmada
que cresce
e desliza na praia?

às vezes é tudo tão azul
que ofusca
...................
ANOITECER

Anoitece de todas as maneiras,
a escuridão imiscuída entre as ruas
é um silêncio de ausências e omissões.
Caem as casas na cidade desolada,
caem os pensamentos,
feito espinhos,
e os homens recolhem-se à melancolia,
à melancolia áspera das coisas.

Não há redenção no amor
quando a pele a descolar dos ossos
é um vento as invadir cada minuto.
.......................
ERMA

É erma a noite
sangra pela tua ausência.

Incisão oblíqua
desfiando dor e desejo.

A um só tempo
réquiem e blues.
...............
IMAGINA

imagina homens que caem como coisas
a descrever um caminho estranho,
um trajeto helicoidal
- a repetir atos não exatamente iguais -
que apenas encobre a reta inadiável.

imagina a terra que os recebe todos,
a receber as coisas, os homens,
silenciosamente.
e devolver-nos natureza, esplendor,
na sua geografia inexata,
mas eficiente.
um sem-fim de vozes.
..................
NAUFRÁGIO

naufraguei nas tuas costas
ó país dos desalentos.

perdi-me nas tuas águas
a tempestade a varrer-me
o corpo em ascendido movimento

soube assim da crueldade dos gestos
da inutilidade das palavras
.....................
NO ESCURO

a noite é uma sucessão de horas no escuro.
não importa, nada importa.
mais uma vodka,
uma garrafa de bom vinho,
uma carreira branca,
mais uma canção a ser cantada
com a garganta trêmula
do sentimento que acossa.
o blues magistral fatia a noite.

é tarde,
esgotam-se as horas,
a mão se inquieta,
crônicas, as palavras se deitam
sobre o bloco
apanhado ao acaso.

O corpo se ressente de ausências
e cai
nos velhos braços jovens da noite.
risos e mais um dança
antes do amanhecer
sobre lençóis suspeitos.

é a vida, diria depois,
condescendamos.