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segunda-feira, 9 de maio de 2022

QUEM SOU EU? – Vânia Moreira Diniz

Quem sou eu que não me enxergo,
Nessa luz rasa e fracamente difusa,
Quem sou que não me encontro
E nunca entendo o que se passa?

Quem sou eu a caminhar pensativa,
Procurando entender minha alma,
Penetrando em sinuosos caminhos,
E tentando não cair naquele abismo?

Quem sou eu que não compreende,
Esse momento estranho tão rude,
A agredir meu sentimentos,
Quem sou eu afinal?

Quem sou eu a olhar no infinito,
Procurar nas estrelas a minha luz,
Pedir a lua que me devolva os segredos,
E me deite na areia da minha praia?

Que sou eu, que procuro o inexistente,
Pede que aqui ele me busque,
Indicando-me a estrada sinuosa,
Que nem sei por onde passa?

Quem sou eu, que não me reconheço,
Não entendo o que digo ou faço,
Entre mistérios não me atento,
E assim entre quedas prossigo?

Quem sou eu? Quem sou eu,
Que não me reconheço?
Que de longe contemplo,
E digo para sempre que não quero?

Quem sou eu sem tamanha lucidez,
Cujo olhar não atinge nem penetra,
O horizonte que antes eu via,
E me parece tão estranho e distante?
Quem sou eu?

segunda-feira, 4 de abril de 2022

QUATRO POEMAS de Caroline Prince

IPÊ-AMARELO

Dançar é como canto as músicas
que ainda não aprendi. Reparei primeiro
no tapete dourado, não de todo pisoteado. Tropecei,
e foi para cima que olhei.

(É tempo de voo, não de queda)

E eu vi o céu, ele
cantava em amarelo
Da melodia,
só conheci a cor.

O equilíbrio não tem descanso.
Meu corpo, naquele dia,
adormeceu dançando.
...............................
AURORA

A faísca primeira
do início anunciado

Venha ver, meu bem!
A vida iluminou.

Recomeçou:
seca o que restou da escuridão
abra espaço
para a luz brotar

Aurora
é uma criança velha
que acorda cedo
para lhe lembrar:

De novo, meu bem!
A vida chamou

Se for pranto,
varre para longe
Deixa o pó desse sorriso se espalhar
...............................
PRIMAVERA

Andei até a pernas pedirem sombra,
procurei até embaixo da cama.
Por todo canto reparando em olhares,
estudando abraços e correntezas de rios

Não encontrei nada que permanece

Tudo que dura se reinventou,
acompanhou a impermanência.
Foi efêmero, mas floresceu depois de cada inverno.

Não sobreviveu: criou vida nova.
...............................
CONFIAR

confiar é pular no abismo de olhos fechados e
descobrir que se tem asas. ou não. confiar é testar
a magia dos dias.

terça-feira, 29 de março de 2022

SALTO – Deborah Dornellas

 

daqui a dois passos
posso despencar num abismo
e nunca chegar ao fundo 
ou
tropeçar e cair no chão árido
das margens do buraco
e me salvar da queda livre
ou
construir uma ponte pênsil
e atravessar a garganta
onde lá embaixo
ruge o rio turvo
ou
desenhar um trampolim
pronto para o mergulho
e saltar de olhos fechados
ou
tecer uma teia no vazio
e me enredar nela
para capturar insetos
e comê-los inteiros
mortos ou vivos
se estiver com fome
ou
chegar a um espelho d’água
onde enxergue minha imagem refletida
e ela me diga: teu nome é narciso
ou
acorrentar meus tornozelos
a uma pedra imensa
com destreza formidável
então
bater muitas vezes as asas que não tenho
para alçar voo sobre o vale
de onde veria que tudo se move
ou
perceber simplesmente
que o espaço
é o cumprimento
do tempo