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domingo, 1 de maio de 2022

POEMAS DE Sílvia Chueire

 

MAR

cola a tua boca
no mar que sou
o sal e as ondas

derramadas.

ouves o marulhar
na respiração ritmada
que cresce
e desliza na praia?

às vezes é tudo tão azul
que ofusca
...................
ANOITECER

Anoitece de todas as maneiras,
a escuridão imiscuída entre as ruas
é um silêncio de ausências e omissões.
Caem as casas na cidade desolada,
caem os pensamentos,
feito espinhos,
e os homens recolhem-se à melancolia,
à melancolia áspera das coisas.

Não há redenção no amor
quando a pele a descolar dos ossos
é um vento as invadir cada minuto.
.......................
ERMA

É erma a noite
sangra pela tua ausência.

Incisão oblíqua
desfiando dor e desejo.

A um só tempo
réquiem e blues.
...............
IMAGINA

imagina homens que caem como coisas
a descrever um caminho estranho,
um trajeto helicoidal
- a repetir atos não exatamente iguais -
que apenas encobre a reta inadiável.

imagina a terra que os recebe todos,
a receber as coisas, os homens,
silenciosamente.
e devolver-nos natureza, esplendor,
na sua geografia inexata,
mas eficiente.
um sem-fim de vozes.
..................
NAUFRÁGIO

naufraguei nas tuas costas
ó país dos desalentos.

perdi-me nas tuas águas
a tempestade a varrer-me
o corpo em ascendido movimento

soube assim da crueldade dos gestos
da inutilidade das palavras
.....................
NO ESCURO

a noite é uma sucessão de horas no escuro.
não importa, nada importa.
mais uma vodka,
uma garrafa de bom vinho,
uma carreira branca,
mais uma canção a ser cantada
com a garganta trêmula
do sentimento que acossa.
o blues magistral fatia a noite.

é tarde,
esgotam-se as horas,
a mão se inquieta,
crônicas, as palavras se deitam
sobre o bloco
apanhado ao acaso.

O corpo se ressente de ausências
e cai
nos velhos braços jovens da noite.
risos e mais um dança
antes do amanhecer
sobre lençóis suspeitos.

é a vida, diria depois,
condescendamos.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

POEMA SEM TÍTULO 1 - Luís Filipe Marinheiro

 

Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto
por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento
das coisas profundas,
contra os tendões severos
a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco,
a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a devastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

PARTO – Carla Torrini

 

Eu hoje gerei a solidão
em forma de uma criança chamada tristeza…
Eu a pari com ternura
e ela me presenteou com a dor…

Carreguei-a nas entranhas
e sussurrei palavras singelas
que a fizesse adormecer
e acalentasse os seus sonhos…

E a criança quieta
foi crescendo e absorvendo
os tormentos da minha alma
e descosturando a teia da razão…

Pari na eternidade
a criança da dor
que escorre suas lágrimas
no batismo da redenção…

Ela cresceu nos pregos
entalados na garganta da cruz
e hoje reza aos céus
sua estadia nos infernos…

A criança gerada
na angústia da trilha
buscadora de si
e andarilha do outro…

Mendiga do perdão
amante da punição
concubina do coração
e prostituta da emoção…

A criança anda pelos labirintos
calcando suas entregas
pelos caminhos do calvário
que respiram seus espinhos…

E ela se infla de escárnio
e faz amor com a frieza
da aspereza da saudade
que a pisoteia nas tempestades…

Pobre criança faminta!
Sua busca não tem fim!
Gerada na pestilência do acalanto
e mergulhada na orgia da fragrância…

Hoje encontra-se só
No meio do vendaval…
Nascida da solidão
no parto da ternura…