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sábado, 7 de maio de 2022

INQUIETUDE – Perpétua Amorim

Quando aninha cá dentro
Uma saudade de não sei o que
Uma inquietude danada
Dessas de doer as entranhas
Misturando os sentimentos
Buscando uma estranha razão.

Mas quem disse que eu procuro razão?

Quero mesmo é divagar
Entre sonhos e pesadelos
Entre o real e o abstrato
Correr como corre o rio
Com sua língua desvairada
Lambendo pedras e ribanceiras
E sem culpa cuspir no mar.

Mas quem disse que eu procuro o mar?

Quero mesmo é pegar as estrelas
Olhar uma a uma na palma da mão
Fazer delas um banquete
Para o meu pobre andarilho
Que busca mais... Muito mais
Do que água e pão.

Mas quem disse que eu quero pão?

Quero mesmo é cavalgar por montanhas infindas
Atrás do meu ouro em potes
Que herdei de Ali Babá
Libertar-me da antiga túnica
E vestir meus sete véus
Engasgar-me com o que restou do vinho
E ser expulsa dos céus.

Mas quem disse que eu não quero os céus?

sexta-feira, 22 de abril de 2022

PARTO – Carla Torrini

 

Eu hoje gerei a solidão
em forma de uma criança chamada tristeza…
Eu a pari com ternura
e ela me presenteou com a dor…

Carreguei-a nas entranhas
e sussurrei palavras singelas
que a fizesse adormecer
e acalentasse os seus sonhos…

E a criança quieta
foi crescendo e absorvendo
os tormentos da minha alma
e descosturando a teia da razão…

Pari na eternidade
a criança da dor
que escorre suas lágrimas
no batismo da redenção…

Ela cresceu nos pregos
entalados na garganta da cruz
e hoje reza aos céus
sua estadia nos infernos…

A criança gerada
na angústia da trilha
buscadora de si
e andarilha do outro…

Mendiga do perdão
amante da punição
concubina do coração
e prostituta da emoção…

A criança anda pelos labirintos
calcando suas entregas
pelos caminhos do calvário
que respiram seus espinhos…

E ela se infla de escárnio
e faz amor com a frieza
da aspereza da saudade
que a pisoteia nas tempestades…

Pobre criança faminta!
Sua busca não tem fim!
Gerada na pestilência do acalanto
e mergulhada na orgia da fragrância…

Hoje encontra-se só
No meio do vendaval…
Nascida da solidão
no parto da ternura…

quinta-feira, 14 de abril de 2022

POEMAS DE Líria Porto

 

DA ÚLTIMA VEZ

eu te queria
quero-te ainda...

meu coração fogareiro
ao ver-te tão sorrateiro
faz canção de bem-te-vi
e ao som de um bolero
no laço do teu abraço
vira flor de sabugueiro
cheiro de mato
capim bravo...

com a sede do deserto
pede água
chega perto
rodopia
tem vertigem
tem inocência de virgem
recebe a ti
todo
inteiro...

não desmaiei
eu morri...
................
PREDESTINADOS

nas teias
nas brenhas
nas entranhas
o mistério
o destino
a sina...

eu não mais te esperava
esculpiste sozinho
a tua vida
e cá estamos nós
olhos nos olhos
bebendo do mesmo copo
na mesma esquina...
............
ANOMALIA

essa cidade medusa
execrável como os medos
ódios misérias injúrias
a megalópole se expande
assusta igual o demo

essa cidade monstro
tão cruel quanto a fome
abocanha mastiga cospe
tal fôssemos bagaço de cana

essa cidade infortúnio
avilta destrói tritura
transforma tudo e todos
em disforme pasta urbana
..............
DESASSOSSEGO

a desconfiança a dúvida
não se saber do amanhã
a vida sem corrimão
o medo a causar angústia
dores de cabeça úlceras
não resolvem não adiantam
só quando o agora surge
aparecem soluções

escapam de quaisquer planos
as certezas do futuro
que então os dias fluam
cada coisa cada uma
tem a dimensão que damos