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segunda-feira, 25 de abril de 2022

POEMA SEM TÍTULO 1 - Luís Filipe Marinheiro

 

Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto
por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento
das coisas profundas,
contra os tendões severos
a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco,
a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a devastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

MÚSICA COM SOMBRAS - Vicente Franz Cecim

 

Porque te vestes de Sombra
é que eu te espero onde os dias morrem para sempre
Escuta é a voz humana
essa areia sufocada em tua garganta: isso, a areia
soprada por um vento,
é a coisa que os homens chamam a Voz humana

A Nossa voz,
ah
Dela, nada dizer Calar na bruma
Porque tu vestes de sombras
a criança que trazes pela mão,
torturada como um vício, branca como uma virtude
triste
como uma flor presa em sua Raiz

Onde está o colar dos desesperos, ali
puseste os pulsos das manhãs nascentes
Nenhum Anjo, nenhum Anjo
Estamos presos no Centro,
ou livres caindo no escuro
E eu não sei qual das duas portas,
assim abertas, são mais terríveis são
mais belas

Se
só sei
que te espera
a que virá coberta pela Sombra
trazendo pela mão essa criança sem Face,
sem rugas também
sem ter nascido
Se assim escurecesse em silêncio esta paisagem
onde pousamos ausentes para os olhos
dos cegos,

toda Serpente seria caridosa,
todo encanto teria nervos azuis de pedras de fontes
de lamentos não-nascidos do fundo da garganta
nem a tua nem a da menor que tu, a tua criança
que devolves à claridade
com um gesto de amargura
e recuperas
para o negro dia dos meus olhos
com um gesto de ternura

Ela, a fonte em nossas frontes, pensativamente está
pousada,
observa
Paisagem de deserto, e mão cheia de pó:
um sonho para olhos de vidros sonharem
com torturas

Ela: é a Paisagem: é o Lugar, e é o Pranto
do lugar onde os dias morrem
para sempre
Nenhum anjo, nenhum anjo
Não é a Voz humana, nem ao menos murmurando