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domingo, 15 de maio de 2022

POEMAS de Flora Miguel

 

DO MAR SE DIZ TERRA À VISTA

o verde o douro
da claríssima ilha de pedras
seus desejos
– nossas veias
algumas ervas
embrulham o estômago

algumas palavras
escorrem da boca
que nem espuma
.......
CONTRAPARTIDA

rajadas de ideias pixeladas
notícias terrivelmente
sérias
hoje vamos
apenas ver o sol
escorregar
.......
PEQUENO BURGUÊS

eu não tenho sentido
sou pura ocasião

um filete de peixe nos dentes
tinto e salgado

machucando a gengiva
fazendo salivar
.......
RECLAME AQUI

desfazer: desapropriar: desejo
devolver ao mundo aquela sua cara de meio-dia
alguma mania que ficou presa nas minhas
pregas são tantas devoluções que encheriam
prateleiras estoques e estradas com caminhões
de carga
como o da transportadora
que levou minha casa embora em 99

faço terapia, canto e poesia
nunca deu em muita coisa
você parece melhor do que eu
você e sua tela azul
sua janela verde
sua jaula empoeirada

eu crio turbulências
mas também faço um bem danado:
a heroína que veio com defeito

segunda-feira, 9 de maio de 2022

POEMAS de Carine Araújo

ANARQUIA

A rebeldia que nos alimenta
Vem talvez do fel
Derramado pela serpente adâmica
Vem talvez da morte
De heróis que não se sabiam
Vem talvez da dor
De crianças desnascidas
Vem talvez de nós
E dessa vontade incontrolável
De ser
.......
DELÍRIOS DE NOITE E MEIA

Imagens criptográficas
Em desenhos fosforescentes
Pendurados no ponteiro
Por sobre os rios de Cachoeira
Correm, tic-tac, sem parada
Até o hedonismo profundo do ser
Que se rompe e se contrai
Em pó, barro
E lançado no rio
Lama
.......
DRUMMONDEAR

Não farei versos do tamanho do mundo
Em meu coração já não cabem
E nem eu em mim mesmo
Não vou cantar recordações
De uma terra que nem conheci
Vou dizer a verdade das rosas
Que catei num caminho
Sem pedras
Vou anunciar a loucura
Contida em cada lucidez
E a cada momento voltar-me-ei para ti
E saberei que estás de pé
.......
ESPELHO, ESPELHO MEU...

Um dedo em riste
Nos diz que somos velhos
Gordos
Esquálidos
Antipáticos
Feios
Somos até etc. e tal
E o último espelho
Estilhaçado
.......
PARECERES NOTURNOS

A cidade preto-dourada
Em luzes de mercúrio
Ofusca os olhos dos casarões
Que tentam – das janelas -
Espiar o passado passando
O rio – que outrora embebedou suas ruas –
Imerge sombras
Que abarcam a locomotiva azul
Sangrando a cidade
Adormecida ao som do seu trilhar
Embalada em marés de ventos longínquos

PELA RUA – Gizelda Morais

 

Caminho pela rua...
quantos destinos cruzam-se comigo,
quantas vidas diferentes de outras vidas,
quantas faces diferentes de outras faces...

Vou passando por muitos
(enquanto eles também passam por mim)
e perscruto seus gestos,
seus modos,
seus olhares.
Vejo gente sorrindo,
vejo gente cansada,
gente altiva,
gente humilde,
gente triste...
não vejo alguém chorando,
mas, quanta gente choraria o pranto
guardado, se não fosse a vergonha
de chorar pela rua.

Na rua passa tudo, passam todos
passa a noite, o silêncio, o barulho,
até os mortos passam pela rua.
E suas casas,
suas luzes,
suas pedras
também olham, perscrutam e testemunham
a tudo e todos que passam
pela rua.