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quinta-feira, 26 de maio de 2022

POEMAS de Sosígenes Costa

 

CHUVA DE OURO

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
.......
DUAS FESTAS NO MAR

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.
Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.
.......
BRASÍLIA

A mãe do mato
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.

A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.

Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.

A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.

Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.

A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.

domingo, 15 de maio de 2022

POEMAS de Flora Miguel

 

DO MAR SE DIZ TERRA À VISTA

o verde o douro
da claríssima ilha de pedras
seus desejos
– nossas veias
algumas ervas
embrulham o estômago

algumas palavras
escorrem da boca
que nem espuma
.......
CONTRAPARTIDA

rajadas de ideias pixeladas
notícias terrivelmente
sérias
hoje vamos
apenas ver o sol
escorregar
.......
PEQUENO BURGUÊS

eu não tenho sentido
sou pura ocasião

um filete de peixe nos dentes
tinto e salgado

machucando a gengiva
fazendo salivar
.......
RECLAME AQUI

desfazer: desapropriar: desejo
devolver ao mundo aquela sua cara de meio-dia
alguma mania que ficou presa nas minhas
pregas são tantas devoluções que encheriam
prateleiras estoques e estradas com caminhões
de carga
como o da transportadora
que levou minha casa embora em 99

faço terapia, canto e poesia
nunca deu em muita coisa
você parece melhor do que eu
você e sua tela azul
sua janela verde
sua jaula empoeirada

eu crio turbulências
mas também faço um bem danado:
a heroína que veio com defeito

sábado, 26 de março de 2022

POEMAS de Onévio Zabot

 

MÃOS

As mãos que tratam o gado,
apanham nuvens nas noites de chuva
e enfrentam tormentas nas horas de solidão.

Sagrada são as mãos do pastor,
do laçador que boleia o laço
e movimenta rebanhos por campos de trigo.

Sempre haverá mãos
prontas para o abraço dos desesperados
ou para evocar a fuga de leões marinhos.

Mãos que buscam anjos,
atraem sonhos de jovens cortesãs
no largo leito de núpcias.

Mãos que levam naves pelo espaço,
que trazem estrelas
e as espalham nos lagos e cisternas.

Mãos que apenas querem,
desvendar vias por praias desertas,
pondo o mar no caminho das ondas.

Maior que nossos sonhos,
todos os dias sentimos o rosto
preso entre as mãos,

Sentimos o corpo queimar,
arder em busca do sol,
onde repousam nossas mãos.
...........
VELEIROS DE PAPEL

Há no ar uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede.

O homem pelas sebes
Caminha,
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.

Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas tendas de areia.

O cansaço dos inocentes
põe pedras nos olhos,
fere de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.

Se nada segues
pouco vale o destino,
a morte cavalga veloz
sempre a caminho.

O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros de vento.
.....................
PEIXE

Cristalino, o peixe
navega entre retinas,
no arremesso das águas.

Há um matiz
inventado em azul e verde:
um amarelo pingente.

Igual flecha,
desenha no perfil das águas
as cores do dia.

O peixe como a ave
navega na luz,
frágil e refratária.

Entre o caminhar
do homem, e o vagar do peixe,
não há distância.

Ambos se entreolham,
em longas viagens,
por espelhos oblíquos.

No tempo do mundo,
- lagos e mares e rios -
há um lugar comum de navegar.