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terça-feira, 31 de maio de 2022

POEMAS de Daniel Faria

 

AS MULHERES ASPIRAM A CASA
PARA DENTRO DOS PULMÕES

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores

cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas

apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda

que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
.......
EXPLICAÇÃO DA LUZ

O azulejo lava a sua luz

Tem o brilho
Do movimento exato
Dos seus vestidos

E o seu rosto é limpo.
Com as suas próprias mãos
Sem acabar se acaricia

A luz lava o brilho
Do azulejo. A luz o lava
No seu vestido

E o seu rosto é um.
Com as próprias mãos
O quebra e inicia

terça-feira, 17 de maio de 2022

EVOCAÇÃO FEMININA – Virgínia Schall

 

-Poema premiado – 3º lugar no Prêmio de Poesias da Academia Feminina Mineira de Letras.
Belo Horizonte, 1998

...
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!

sábado, 26 de março de 2022

POEMAS de Onévio Zabot

 

MÃOS

As mãos que tratam o gado,
apanham nuvens nas noites de chuva
e enfrentam tormentas nas horas de solidão.

Sagrada são as mãos do pastor,
do laçador que boleia o laço
e movimenta rebanhos por campos de trigo.

Sempre haverá mãos
prontas para o abraço dos desesperados
ou para evocar a fuga de leões marinhos.

Mãos que buscam anjos,
atraem sonhos de jovens cortesãs
no largo leito de núpcias.

Mãos que levam naves pelo espaço,
que trazem estrelas
e as espalham nos lagos e cisternas.

Mãos que apenas querem,
desvendar vias por praias desertas,
pondo o mar no caminho das ondas.

Maior que nossos sonhos,
todos os dias sentimos o rosto
preso entre as mãos,

Sentimos o corpo queimar,
arder em busca do sol,
onde repousam nossas mãos.
...........
VELEIROS DE PAPEL

Há no ar uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede.

O homem pelas sebes
Caminha,
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.

Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas tendas de areia.

O cansaço dos inocentes
põe pedras nos olhos,
fere de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.

Se nada segues
pouco vale o destino,
a morte cavalga veloz
sempre a caminho.

O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros de vento.
.....................
PEIXE

Cristalino, o peixe
navega entre retinas,
no arremesso das águas.

Há um matiz
inventado em azul e verde:
um amarelo pingente.

Igual flecha,
desenha no perfil das águas
as cores do dia.

O peixe como a ave
navega na luz,
frágil e refratária.

Entre o caminhar
do homem, e o vagar do peixe,
não há distância.

Ambos se entreolham,
em longas viagens,
por espelhos oblíquos.

No tempo do mundo,
- lagos e mares e rios -
há um lugar comum de navegar.