segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

BIGODE – Mariana Payno

por uma dessas assimetrias da natureza
- talvez a mesma que a fazia carregar tamanhos diferentes nos olhos,
os pelos cresciam-lhe mais do lado direito do rosto

um bom observador logo percebia
algo que não barba
mas um emaranhado de confusões

como cócegas
ou alegrias
de perto

a despeito disso
importante fazia-se o bigode
(este, sim, perfeitamente estabelecido em seu lugar)

digno de técnicos de futebol,
bandidos dos anos 1950,
aristocratas,
surrealistas,
qualquer mexicano ou português,
quem sabe um gato

movia-se acima da boca
com naturalidade felina

sorria
como a malícia infantil de dick vigarista,
um poema com duas estrofes de leminski,
o quadro mais famoso de dali

e por mais cinco minutos
(os corriqueiros)
— esticados na cama

a felicidade roçaria a nuca
escovada
no silêncio das manhãs.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

RUBAYAT - Omar Khayyam


Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.

Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?

Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

ROSA AMARELA – Antonio Carlos Gomes

No supermercado
comprei uma rosa amarela,
muito bela!
Comprei:
Ela rimava
com a donzela
bela
singela.
Aquela donzela bela
que eu sonhava com ela.

Na mesa
coloquei toalha verde
para contrastar com ela
e a pizza de mussarela
servi:
brindei com a taça amarela
a moça tão bela
pois eu sonhava
com ela.

VERSOS SOLTOS - Rafael Rocha

Das coisas boas que tenho nesta vida
e que não possuo condições de mostrar...
Uma delas é a mulher mais proibida:
- Vou escondê-la até a morte me levar!

De outra coisa a mim entregue pela vida
peguei emprestado de não sei qual mar.
Está guardada na poesia envelhecida.
Não a mostro para não desencantar.

Coisas boas que escondo são milhares
e espero outros milhares pelo caminho
que ainda resta nesses meus trilhares
para os meus sonhos acarinhar sozinho.

FRAGMENTAÇÃO - Valdeci Ferraz


Envelheço por dentro e por fora.
Um ano a mais, um ano a menos
não faz tanta diferença.
Meu corpo se afasta de mim
como o domingo se afasta do sábado.
O tempo é um escultor sádico, implacável,
que adora fazer riscos na face do homem.

Envelheço tal qual o pinheiro:
Olhando sempre para o alto,
numa tentativa inútil
de não voltar ao pó de onde vim.
Busco as estrelas fugindo da escuridão
e me alimento das lembranças
que insistem em me acompanhar.

Em algum lugar do passado
guardei o mapa da fonte da juventude.
Foi-me dado por uma mulher vestida de azul
com mil conselhos sobre a guarda e a proteção.
Hoje, ao tentar encontrar tal tesouro,
só consigo lembrar o nome da fada: ILUSÃO.

ACALANTO – Paulo Henrique Britto


Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

LIMITE– Sylvia Plath

Tradução  Luiz Carlos de Brito Rezende

A mulher está perfeita.
Seu corpo
Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade
Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés
Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.
Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena
Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas
Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim
Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.
A lua não tem porque estar triste
Espectadora de touca
De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

NOVEMBRO - Piedad Bonnett

Tradução de  Rodrigo Savazoni


E chegaram as chuvas de novembro.
E com as chuvas as glicínias lilases
floresceram em meu quintal,
e pontuais, dourados e zombeteiros,
vieram bater em meus vidros
os besouros.

Em novembro,
seu nome, de repente, foi o nome dos dias,
e a umidade do ar meu desejo
e tua língua
um recente calor entre ninhos.

E foi para minha sede festa a chuva,
e as glicínias lilases
foram para minhas brumas sóis perdidos,
e os torpes insetos contra minha porta uma gostosa,
cintilante orquestra.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AMOR FEINHO – Adélia Prado



Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

DISTÂNCIAS – Paul Celan

Tradução: Claudia Cavalcanti

Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos
deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.

sábado, 28 de outubro de 2017

DOMÍNIO DO ESPAÇO – Antonio Carlos Gomes

Falar
É nomear sentimentos
Catalogar objetos.

Criar arabescos
Em formas verbais
Separar o bem e o mal.

Balbuciar
Amor e medo
Delimitando espaços:
- Dizer amo ou odeio
Nada mais.

NOSTALGIA – Valdeci Ferraz

Onde está aquele olor inebriante
que tornava a emoção tão comestível
como as pétalas de uma rosa branca?
Onde estão aquelas notas
que de tão harmoniosas
geravam rios de lágrimas e arco-íris inversos?
Onde está aquela luz
que emanava dos nossos corpos
despertando as estrelas
tornando nossas noites muito mais iluminadas?
Onde se escondeu o beijo
que não aconteceu
e tornou mágica a manhã de abril?

Em alguma esquina,
na ponta de um iceberg,
no topo de um mastro,
nas brumas de um sonho
alguém encontrará o nosso cheiro.
E por ele se guiará ao paraíso,
pois diante de nossos olhos desfilam os mortos,
enquanto os vivos vagueiam
na neblina de sua existência medíocre.

Eles voltam para refazer a sua história
que alguém não registrou como devia
ou morreu antes de escrevê-la.
Nas ruas se erguem paliçadas
para barrar o inevitável,
enquanto os mísseis cruzam o ar
e o homem da caneta de ouro distribui migalhas.

Onde está o violão
que fumegava tarântulas assustadoras
sobre a mesa do homem nu?
Onde estão os guardanapos
sobre os quais os poetas escreviam as suas profecias
embriagados de cerveja e sexo?

No tempo que se fez de chumbo
ergueram-se as baionetas
e amordaçaram o espantalho que vigiava o campo.
E veio a noite e veio o dia
as aves do céu devoraram o fígado do espantalho
enquanto Quíron dormia
sob as marquises dos velhos pardieiros.

O que fizeram dos corrimãos de sonhos dourados?
O que fizeram dos caracóis alados?
Cadê o meu cavalo de pau?
As ruas estão desertas ou repletas de homens vazios
embora conduzam o mundo nas mãos.

domingo, 22 de outubro de 2017

NO CORREDOR DA MORTE - Talis Andrade

Do livro A Partilha do Corpo

Não há neste mundo
uma palavra de compaixão
para os que sofrem
Todos sabem quanto dói
o abandono a solidão
o desamor. Todos sabem
Todos temem a morte

Todos se afastam dos velhos
dos moribundos
Todos sentem
do corpo exânime
o odor nauseabundo

ÉRATO – Marcus Accioly (1943/2017)

“por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO – Rafael Rocha

No dia em que o fogo queimou as plantas.
No dia em que a água dançou no ar.
No dia em que a terra gritou pelo vento:
- Nasceu um poeta!

Tornou-se o dia de embelezamento das palavras.
Tornou-se o dia de abrir todos os livros.
Tornou-se o dia de enfeitar a atmosfera
com uma canção incomum.

O acaso trouxe o sangue à esfera
de um cérebro vivo e rutilante.
E as horas e os minutos e os segundos fizeram a reverência
igual àquela que se faz a um rei.

Às catorze horas de um sábado
hoje mais remoto que o primeiro sábado da idade da pedra
a carne se fez em paixão e inteligência
em plena tarde.

No dia em que o vento girava pela terra.
No dia em que o ar musicava as águas.
No dia em que as plantas apagavam o fogo
a vida tornava-se poema.

Era apenas o primeiro dia de outubro
tão comum como qualquer outro dia.
Era o meu!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O SELVAGEM – Antonio Gomes Leal

Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.

Fechei, de há muito, o livro do Passado
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
N'um egoísmo bárbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...

BALADA DE SEMPRE – Fernando Namora

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...

ELOGIO DA DISTÂNCIA – Paul Celan

 Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno
 
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

A MACHADO DE ASSIS – Ruben Dário

Traduzido por Anderson Braga Horta

Doce ancião que vi, em seu Brasil repleno
de fogo e vida e amor, todo graça e eutimia.
Moreno que da Índia teve a aristocracia;
aspecto mandarino, língua de sábio heleno.
Aceita esta lembrança de quem ouviu uma tarde
em teu divino Rio tua palavra nobre,
dando ao orgulho todos os farrapos em que arde,
e à inveja ruim o que apenas a cobre.

AMOR DE TARDE – Mario Benedetti

Tradução Julio Luiz Gehlen

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.