quinta-feira, 4 de julho de 2019

TERRENO VAGO... - Edmondo Jabès

Tradução de Mário Laranjeira

Terreno vago, página obsedada.

Uma morada é uma longa insônia
No caminho encapuzado das minas.

Os meus dias são dias de raízes,
São jugo de amor celebrado.

O céu está sempre por atravessar e
O terraço por nutrir de noites novas.

De meu vagar o luto forma
Enclave no clarão opaco das paredes.

A terra embebe-se em
Vãs visões de viagem.

NASCIMENTO - Georg Trakl

Tradução de Cláudia Cavalcante

Montanhas: negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.

Silêncio da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.

Oh, o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,

E pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas

Iluminam os olhos da anciã pétrea.

Dor, grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.

MONTANHA DE JULHO – Wallace Stevens

Tradução de João Moura Jr.

Nós vivemos numa constelação
De retalho e retinir de sons,
E não num mundo uno, nas coisas ditas
Acuradamente em música ou fala,
Como em piano ou página de poesia –
pensadores sem pensamentos últimos
Num cosmos sempre e sempre incipiente,
Como, ao se subir uma montanha,
Vermont reúne seus vários pedaços.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

AMARGURA – Lauro Silva

Vida fora, vou só, despercebido,
Inutilmente, como um ser qualquer;
A escutar o responso de um gemido
A todas as palavras que eu disser.

Eterno insatisfeito e incompreendido,
pressinto a anulação do que fizer.
Não recebo um louvor, mesmo fingido;
Não me anima um sorriso de mulher.

A tropegar, sem fé, olhos errantes,
Tangido pela glória dos amantes,
Caminho para um termo que não sei.

E rolo como um seixo no declive,
Ansioso pelo bem que nunca tive
E saudoso do amor que não terei.

PROTESTO – Carlos de Assumpção


Mesmo que voltem as costas
às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar

Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar
Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria

Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia
Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que está gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é?
E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão, tu me desconheces?
Sou eu aquele que se tornara
Vítima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou           '
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do país
O que sofrera mil torturas
O que chora inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas se hoje grito não é
Pelo que já se passou
O que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito, meu irmão,
 porque depois de tudo
A justiça não chegou

Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu, meu irmão, aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação

O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrimas
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
E entre tanta gente triste
Irmão, sou eu o mais triste
A minha história é contada
Com tintas de amargura

Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla.
Foi um cavalo de Tróia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo.
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada.
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria.
Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade

 Irmão, sou eu quem grita
Eu tenho fortes razoes
Irmão, sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar.

Mas, irmão, fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minha alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar

terça-feira, 2 de julho de 2019

UM CONSELHO DO ADMINISTRADOR DESTE BLOG


MARACATU - Ascenso Ferreira

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás...

- Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

As luas crescentes
De espelhos luzentes,
Colares e pentes,
Queixares e dentes
De maracajás...

- Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

A balsa do rio
Cai no corrupio
Faz passo macio,
Mas toma desvio
Que nunca sonhou...

- Luanda, Luanda, onde estou?
Luanda, Luanda, onde estou?

O XADREZ - Cristina Garcia Lopes

o corpo que se dobra
no ar, ágil
e suntuoso

branco e preto:
a pele e o cabelo
sobre o cinza invisível
dos ossos

para a destreza
houve convergência
de todas as partes

se fosse assim dividido:
o olhar doído
a mão indefesa

o corpo que se dobra
frágil
aos jogos do amor

NOITE – Álvaro Alves de Faria

Melhor é ter um cão
com quem se possa conversar,
especialmente à noite.

Melhor é ter um cão
para em silêncio ser ouvido,
como se palavras não existissem
nem conversas,
nem dizeres.

Com um cão as palavras
são desnecessárias.

Nesta sala vivemos quietos
diante da janela
e isto nos basta.

SALTIMBANCOS – Carla Andrade

A vida é só um picadeiro de circo
Quando notamos...

Foram-se as lâminas certeiras
dos atiradores ciganos
restaram véus de purpurinas.

Apenas as lembranças rodopiam.
Ecoam em algum lugar aqui dentro
como cambalhotas sapecas.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

ABSTRATO – Mariana Botelho

eu nunca beijei um poema.

no entanto ele está aqui
roçando leve minha
boca

nas horas dos
mais
doídos
silêncios

FELICIDADE – Raymond Carver

Tradução de Cide Piquet

Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.

Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.

DESSEMELHANÇAS – Lenilde Freitas

Do lugar em que estou
vejo a calçada do outro lado
e um cachorro que passa
triste como quem fareja
a própria morte.
Aqui, enquanto dois relógios batem
dessemelhantes idêntica hora,
uma vespa insiste
rancorosos declives no vácuo
onde adivinho partículas
de poeira imitando cardumes
— pois só tenho olhos para uma coisa:
o cão subindo a rua
que, sendo a mesma, muda de nome
a alguns quarteirões daqui.

DEDOS - Ronaldo Costa Fernandes

Meus dedos têm desertos.
Há areia fina na minha vontade.
Meus dedos são hipótese
como gaiola vazia.
Não têm tato,
só conhecem o tagarelar dos acenos.

Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva.

AÇÚCAR – Amélia Alves

é verde e veio
de cana caiana
sangrando
o suco operário
de muitos suores
e caldos
melados
fermentos
cachaça
melaço
e canaviais
roçados
de calos
nos pés e nas mãos
e bóia fria
marmita
- aceiros intermináveis
e joios e pedras
e foices
e folhas secas
estalando miséria.

SIMPLICIDADE - Maria Thereza Noronha

O que por mar vier não sendo barco
alga coral peixe retardatário
será de mim o que deixei alhures:
praia perdida de remoto mar.

O que por ar vier não sendo asas
— aeronave ou ave migratória —
rumor será de vento nas acácias:
rota antiga de um sonho perdulário.

O que por terra vier será bem-vindo
como bem-vindas são as coisas simples,
estratégia e rotina se alternando:
legada a insanidade aos altos píncaros.

CODA – Jorge Wanderley

Vão resistir alguns subúrbios
das lembranças, na escuridão.

Um rosto de arquivo morto
que a nada se relaciona;

certo abraço de amor
sem nenhum sexo;

um gole d'água,
a sede que o iluminava

mais que o sol daquela outra
manhã também casual;

o acorde de uma música
não eleita;

o de outra, amada;
o pátio, na sombra

que o verso viu
e nunca povoou;

palavras soltas;
talvez dor;

e o que é de barcos e portos,
partir, chegar.