quinta-feira, 2 de setembro de 2021

POEMAS - Helenice Maria Reis Rocha

O GRITO DO NADA

Sobre o nada regateio os
meios dias
sapateando nos espinhos
das valas
Quando calas, me desvaneço
Tu, rosto sem face que
me espreita
Sou esse rosto sem rosto
que me observa
Indigno ser errante de
um erro sem nome
Batizo as estradas
com meus pé voantes
revolvendo terra
beijando o pó da
minha espera.
............................
A RIMA

Joana não tem dentes
Maria espera um noivo
Clarinha está doente
Joaquina não tem parentes
Julinha baila nas avenidas
e João ficou demente
Entre tantos desatinos
o que mais me assombra
também me desafia
Entre tantos rumos só
um me desatina:
como atravessar o
trapézio equilibrando
a rima?
..........................
O ÓCIO

Despetalar o ócio
esse o ofício de
quem cria
informando o rumo de
um trabalho sem preço
Desmascarar o ofício
esse o rumo de quem
oferta sua cria no
altar da consumição
Desamarrar os rumos
esse o gosto de
quem sentencia o
doce exercício de
vaticinar as horas
Desarmar a verve
esse o dever de quem
arruma palavras em
verso
explicitando a vida.
...........................
A FUGA

De outro tanto a outrossim
escapei da lábia de Caim
Não caí no poço fundo
da amargura
Arquitetei bem a fuga
No lado obscuro
da armadilha finquei minha geração
plantei meus dias vazios
dormi sem preocupação.
Na cova do desenredo
enterrei as sementes do
medo e gritei por
precaução.

SONETOS – Ledo Ivo

 

SONETO DA ENSEADA

Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?
.........................
O RAIO

O raio que caiu dividiu o verão.
A cisterna de luz escorrida na terra
sob a nuvem purpúrea e o voo do gavião,
e me alcançou em cheio, no meio de mim,

como o aroma da flor que se ergue no jardim
para impor a quem passa o domínio do instante.
O sol desmoronado escondeu os seus raios
na doçura da palha espalhada no estábulo.

A serpente agoniza, mudada em coral.
A relva abre caminho ao silêncio dos homens
que escalam as montanhas douradas do outono.

Entre os que vão e vêm eu também venho e vou.
Nos tormentos do mundo fui multiplicado
e de tanto existir já não sei mais quem sou.
...........................
SONETO DOS VINTE ANOS

Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

DOIS POEMAS - Tasso da Silveira

CATA-VENTO

Cata-vento, lá no alto,
capta o mundo nos ventos.
O mundo das geleiras brancas,
dos desertos dourados,
das cidades aflitas, das montanhas, do mar.

Cata-vento, lá no alto
capta as horas nos ventos.
As horas, no orbe, simultâneas
mas tão infinitamente diferentes:
horas, aqui, da seara amanhecente,
horas, ali, da torre ensolarada,
horas, além, de cais na noite triste,
horas, por toda a parte,
de nascer ou morrer.

Cata-vento lá no alto
longe do chão impuro
capta os ventos que vem.
Ah, cata-vento não escolhe vento.
Todo vento lhe traz desejo e sonho,
todo o vento lhe traz beleza e mágoa.
Sim, cata-vento não escolhe vento
capta os ventos que vem,
mesmo os trêmulos ventos sonambúlicos
das solidões estagnadas
sem sombra de ninguém.
.............
FRONTEIRA

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.