sábado, 29 de agosto de 2020

A DESEJADA – Rubens Jardim

 


Onde está a desejada da minha alma,
a mulher que criou janelas, portas e abismos
e se escondeu de todos os meus caminhos?
Antes que o tempo destrua minha calma

Eu quero me debruçar sobre sua presença.
Ou sobre sua lembrança. Preciso de um prisma
Para celebrar as suas cóleras, as suas cismas.
A desejada da minha alma é uma sentença

Que ficou no avesso controverso do fichário,
é o verso rabiscado em um momento raro,
é a urgência escrita desta brasa imaginária.

Sou o construtor desta mulher lendária
que me habita como botequim ignaro
e me faz louvar até as mágoas mais ordinárias.

SOBRE O TEMPO – Marcelo Ariel

 

Ali está o tempo como coisa
que não pode ser contida
jamais ignoramos sua potência flutuante
que a tudo limita e essências paralisa

nenhuma razão humana
tem o poder de evocar a força
capaz de o transfigurar em
benevolente eternidade.

fora de toda palavra
em uma Paixão
secretamente se move
o que é maior
que o Tempo
Oceano onde o rio do incomunicável
deságua
e o infinito
através do instante contorna.

Ali está o Além-tempo
essência do maravilhoso silêncio
florescendo no espaço
de um amor inominável
refletido na luz do incomensurável.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

OS PEIXES DO MEU RIO - Darcy França Denófrio

 

No reverso, a história de meus versos.
No avesso, a pura canção de gesso,
que se sustenta no azul da lenda,
no equilíbrio do fio que (entre)teço.

Na superfície, a frauta noturna
de sustenidos ais e bemóis.
Na superfície, a fraude fria
e a neblina sobre mil lençóis.

É no fundo d’água, nos peraus,
que moram os peixes de meu rio.
É no remanso que alguma iara
sempre se esquiva solitária.

De repente, o susto da cilada,
um anzol recurvo - aço e isca -
mas os meus peixes não se entregam,
apenas provam de leve, triscam.