quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

EM CENA – Jurema Barreto de Souza

 

Um corpo
que não me comporta
tantas almas tortas em mim,
umas vivas outras mortas,
a reprise é necessária.
Em ciclos de cinema
acontece a vida,
o roteiro pouco muda
filme de arte ou dramalhão.
O que importa é ser o diretor
que vê a cena e a poesia.
E a mão que tira do abismo
brega ou chique
depende do champanhe ou da sidra.
Cena final:
as flores estremecem
no verde do meu vestido
nunca amadurecer a esperança
nunca apodrecer o desejo.
A paixão é boa sempre,
por uma noite ou para sempre.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

CANTIGAS – Moura Rego

 

Eu vivo a fazer cantigas
para minha alma alegrar,
mas lembro mágoas antigas,
ponho-me logo a chorar.

Meus males sempre cantei-os
a consolar quem padece;
quem ouve males alheios
dos próprios males esquece.

A cantar passo os meus dias
e as dores vou suportando
que as dores são alegrias
para quem vive chorando.

Saudade - dor e carinho,
tortura ao passo que afaga:
a saudade é como o vinho
que é doce mas embriaga.

Hoje pousou uma abelha
na tua boca mimosa;
tão perfumada e vermelha,
parece mesmo uma rosa.

Estavas hoje tão bela
sob a cambraia do véu,
que eu cuidei ver uma estrela
por entre nuvens no céu.

POESIA – Eugénia Neto

 

Quantas vezes
não te fujo poesia
para que o meu ser
não balance
como barco em mar revolto.

A história é lenta
mas num repente
dobra a esquina.

Ah! O que barra ainda
os horizontes da luz

Nada.

Apenas o momento predito
exato da hora.