segunda-feira, 31 de maio de 2021

SUSPENSO – Adriana Lisboa

 

Tenho comigo as asas que perdi
e as cascas que inventei casas
planos milimetricamente traçados
à traça e teia e pó

De troca em pele
troquei de vida comigo mesma
tantas vezes
que agora me restam apenas
as penas em paraquedas
e sangue suspenso
extasiado

Paraquediei os dias
e as horas
e todos os versos que não escrevi
mas ainda não tenho solo sob os pés
ou conforto que me diga
da certeza de não ter certezas

De tudo o que me resta
entre penas e pudores
fiz das traças companhia
e desmoronei em mim todas as casas:
castelos de escárnio e cartas.

domingo, 30 de maio de 2021

ELEGIA PARA MANUEL BANDEIRA - Eurico Alves Boaventura

 

Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...
Serra de São José das ltapororocas,
               [afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificado no sol se o dia gargalha.
Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens
              [tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade
              [e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.
Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.
Manuel Bandeira, a subida da serra
             [um plágio da vida.

Poeta, me dê esta mão tão magra
[acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria
             [e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.

Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeial em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada.
Visto os couros do vaqueiro e na corrida do cavalo
               [sinto o chão pequeno para a galopada.
Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.
Que poeta nada! Sou vaqueiro.

Manuel Bandeira, todo tabaréu traz
                 [a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.

Feira de Santana! Alegria!

Alegria nas estradas,
que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio,
                [alegria masculina das vaquejadas,
que levam para a vida e arrastam
                [também para a morte!
Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!
Que lindo poema cor de mel esta alvorada!
A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.
Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana
               [e venha comer pirão de leite
com carne assada de volta do curral
Venha sentir o perfume de eternidade
              [que há nestas casas de fazenda,
nestes solares que os séculos escondem
              [nos cabelos desnastrados das noites eternas
venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e o tabaréu como até se parece com Nosso Senhor.

MATUTINO - Walter Ramos

 

Segreda a manhã na claridade do dia;
enfeita a virtude de estar entre viventes
atenta em respeito ao pão diário e ao leite.
Impinge em alguém o sereno, o sublime
sem esforço um sorriso acontece.
Serve dos pulmões a forma inteira
exalta uma vez por dia a esfera celeste
jamais se lança em trevas completamente
(é a força agreste – o princípio da queda).
Em muitos dias não cabe a vida toda.
Um dia vem plena toda a vida inteira.
É mistério perene. Cada um é retalho
do tecido vasto. Um fio em cada astro.
Segreda: também tenho a minha estrela.