domingo, 28 de novembro de 2021

CARNE – Walacy Neto

 

essas linhas quebradas
não falam sobre ser um boi
do horizonte repartido
pelas vigas
nem poderemos ensinar
como espantar os mosquitos
abanando a cauda.

os outros que falem
dos braços do boi
que não são mais braços
os olhos tristes
a mandíbula e o passo do boi
que também desaparecem
lentos.

de quando retiram o direito
a escolha de ser só um boi
momento em que descarnam
junto com as partes peludas
seus sonhos rachados
quase tudo que pensa saber.

essas linhas não falam de carne
não dizem sobre minotauros no centro
elas narram alguma outra coisa
que só se expressa com o silêncio.

ITINERÁRIO DA SOLIDÃO – Clotilde Tavares

Domestico a angústia,
Corto delicadas fatias de solidão para o jantar,
gelo o vinho,
escolho as taças,
acendo as velas.

O meu quarto tem bandeiras.
Caíram todos os vestidos dos cabides.
O gelo derrete.
O telefone tocou: foi engano.

Deixo atrás de mim portas abertas,
tomo táxis,
invado bares,
provo garrafas
e bebo bocas incandescentes
de álcool
e dentes.

Em algum lugar do mundo
espero a madrugada
e meu corpo sangra
duro e tinto
um poema.

De volta à casa
toco de leve os móveis.
Fecho as portas,
leio os classificados,
atraso os relógios.
Alimento a medusa
e para mim frito cebolas.

sábado, 27 de novembro de 2021

DISTÂNCIA ENTRE NÓS – Sandra Fayad

 

Há uma distância entre tu e eu
Que não se mede em quilômetros
Ou horas que o carro percorreu.
Tão pouco é medida em centímetros
Ou segundos que o atleta venceu.

Entre nós a distância é de valores
Limitada por barreiras invisíveis.
Tem diferentes formas de amores
Palavras há tempos inconcebíveis
Com sons ruidosos e novas cores.

Para ti distante é o tempo futuro.
Meu presente faz parte do passado.
Entre ambos ergueste um muro,
E segues apenas de um lado
Mais veloz, porém menos seguro.

Nos autosserviços vais com afã.
Queres bigs, fanta MAIS quarteirões.
Tua linguagem me parece anã,
Mas sigo à risca tuas orientações,
E da janela caem tortas de maçã.

Ainda com o carro em movimento
Desembrulhas tudo com facilidade.
Abocanhas pão sovado, regas condimento,
E enquanto percorremos a cidade,
Comes fritas e refri vais sorvendo.

Fascinada com tudo na verdade,
Percebo como é difícil alcançar-te,
Mas mantenho a pose típica da minha idade
E decido ainda aconselhar-te:
-Come devagar, para melhor digestibilidade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

SOBRE GOSTAR MENOS – Rute Lessa Nascimento

 

Eu vou pedir coisas simples
Na maioria das vezes sem valor financeiro
Algumas vezes possível
Ou melhor, sempre possível
Pois se não fosse não pediria.
Vou pedir coisas fáceis
De difícil já basta a vida
Mas embora simples
Vou pedir coisas de grande impacto
Variando de um olhar sincero
A um arrepio na espinha
E nem precisa ter som ambiente
Pra mim a respiração já basta.
São inúmeras miudezas
E boa parte só precisa do seu corpo
E acredito que do meu também
De uma melodia da sua voz
De um afago no seu cabelo
Sentir os detalhes dos seus poros
O contorno do seu sangue
Suas pintas
Suas imperfeições
Seu olhar momentâneo
Que antes significava tanto
Hoje me dá saudade.