domingo, 22 de fevereiro de 2015

TRILHOS - Rafael Rocha - Do livro "Poemas Escolhidos"

Quando a tarde desceu ao pântano da noite
Trazendo um manto de piscares de estrelas
Um verso tentava nascer numa explosão
Entre galáxias, luas e cometas
Sentindo a saudade mais que desvairada
De tempos que não mais lhes são.

O poeta acreditava na verdade de outros mundos
Tentando desgrudar de si pensamentos maus
Na sutileza de buscar o orgasmo antigo
Da primeira fêmea onde fez o sangue patinar.
Resta a pergunta: o que será que ele fez
Para merecer tão insana saudade/dor?

Tinha um relógio na estação dos trens antigos
A marcar as horas da espera pela mulher
Fosse namorada, fosse amante, fosse puta.
Hoje os trens antigos não andam pelos trilhos
E não se pode ser mais alegre no pairar da tarde
Nem se caçar as tanajuras no amainar da chuva.

A verdade da imbecilidade ganha as ruas.
Homens se ajoelham e rogam pela vida eterna
Aos santos e deuses fabricados por eles mesmos.
E nesses altares dourados dos deuses da mentira
O poeta sabe que os trilhos de seus versos seguirão
Imensos e vivos no trem da eternidade! 

Um comentário:

  1. Um poema muito actual. Gostei imenso.
    Amigo vou colocar no meu blogue
    http://sinfoniaesol.wordpress.com
    Um abraço
    Irene Alves

    ResponderExcluir