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quarta-feira, 13 de abril de 2022

TRÊS POEMAS de Ediclecia Anjos

 

AMPLO VÁCUO

Minha mente me toma por completo
assume poder sobre mim.
Me prende
Me aperta
Me deixa em inércia
Sem saber o que sentir, dizer, fazer….
Um vácuo se forma em meu ser.
........................
O EU E SUAS NUANCES

Não trabalharei com o ser, sim fugirei do concreto
Eu quero ser abstrato, dançar nos meus dialetos
Eu quero ser o estar
Isso sim, quero conjugar.

Não sou superfície tão simples assim
Sou quebra-cabeças até mesmo pra mim
Procuro entender-me complexa afinal
Poder conhecer-me em minhas plenitudes
Assim se baseiam minhas atitudes.
..............
SENTIR

Sinta
Mesmo que não seja agradável
Mesmo que te incomode
Se os sentimentos não são os mais felizes
Se eles o fizerem ficar triste
Não se engane, ao pensar que livrar-se é melhor
Sentir……. sempre será o melhor
Se traz desconforto?
Sinta
Se traz agonia?
Sinta
Se te faz feliz?
Sinta
Se traz alegria?
Sinta
Sinta
Sinta
Sinta em toda extensão do teu ser
Sinta com toda a força e com todo o querer
Melhor sentir, do que vazio ser.

quinta-feira, 17 de março de 2022

AGONIA NOTURNA – Valdeci Ferraz

 

Vasculhei todas as minhas gavetas.
Percorri todas as ruas.
Visitei antigas praças.
Penetrei nos bosques e nas cavernas.
Caminhei por entre velhos pardieiros.
Revi velhas prostitutas
Procurando o perfume de antigos momentos.

Homens desesperançados pediram uma canção.
Nos espaços vazios deixados pelos amigos mortos
Nasceram flores negras e sonhos amputados.
A mulher que devia ser minha
Dissolveu-se como a onda no mar.
E tudo se fez silêncio dentro da noite.

A ponta de um sentimento rasgou o véu do tempo
Por onde penetrou um alquimista embriagado.
E espalhou milhares de estrelas no céu interior.
Então eles foram chegando, um a um,
Com a liberdade que a Musa lhes deu.
Primeiro o odor das primeiras carícias
Quando a semente ainda estava seca
E as palavras perdiam o sentido.

Parece que ouço a voz do perfume
Reivindicando seu lugar ao sol
Como o fiel escudeiro Sancho Pança:
Vem comigo, poeta, ainda há tempo de sonhar.
Não sentes o pulsar das árvores?
Não ouves o canto dos cisnes?
Eu sou o que te leva às alturas
E torna as tuas lembranças eternas.

Com braços longos e firmes
Construiu abrigo para as palavras
E estendeu um tapete tecido com lágrimas
Onde um corpo de mulher dormia.

Um segundo perfume se derramou no ar:
Era o aroma inconfundível dos risos fáceis
Que tornavam as manhãs radiosas
E os rios cristalinos.
A vida explodia a três por quatro nos becos.
Nos campos, nos bosques, nas matas.
Nos leitos, nas moitas, nos sonhos.
E o cheiro de tudo ficava na alma.

O olor acre de fraternos abraços
Ressuscitou a alegria de saber-se amado
Debaixo de lençóis encardidos
A mão tinha um gosto de mulher.
Até que um dia um olor diferente
Se uniu com o vento para confabular
Sobre paixão, desejo e imortalidade.

O incenso de jasmim traz velhas sepulturas
Mas elas fazem a vida tremular
Nas pontas dos dedos e nos lábios de um cantor
Anunciando, gritando, clamando
Que mais do que nunca é preciso cultivar
O perfume que brota do seio da vida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

MÊS ASSASSINO – Mário Faustino

 

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.