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quinta-feira, 24 de março de 2022

O SONHO E A SAUDADE – Edna Menezes

 

Na embriaguez da saudade, nada parecido.
Não sairemos do sonho natural.
A embriaguez em toda sua duração,
Será apenas,
É verdade,
Um imenso sonho irreal,
Graças à intensidade das cores,
À rapidez da concepção:
Mas guardará sempre a tonalidade particular
Do indivíduo.
Do homem que quis sonhar.
O sonho governará o ser:
Mas este sonho será o filho de seu pai.
Será o esforço de introduzir
Artificialmente
O sobrenatural em sua vida,
Em seu pensamento.
Mas depois de tudo
Depois das sensações,
O mesmo ser com saudade,
Subjugado,
E para sua infelicidade,
É ele mesmo que se subjuga,
Pela parte já dominante nele mesmo,
Serve a quem o mata o vencedor.
Quis ser anjo,
Quis o amor,
Momentaneamente poderoso,
Sem governo que o modere ou
Explore.
Saibam os ignorantes e os
Intelectuais:
Não encontrarão no amor
Nada de miraculoso
Apenas seus fenômenos comuns, individuais:
O sonho e a saudade.
O ser não escapará à fatalidade
O amor será um espelho que aumenta
Mas para sempre um simples espelho
Que reflete o sonho e a saudade.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

QUANDO O LUAR CAIU – Conceição Lima

 

Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.
As pedras crescem como ondas
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.
Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.
Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.
E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.
Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.
Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.