domingo, 25 de maio de 2014

Só por ti - Mariana Angélica de Andrade

Se a luz dos teus olhares me reanima,

Dando-me gozos que jamais senti;

Se és a minha esperança mais querida,

Hei-de perder-te? Não! Se o amor é vida,

Quero viver por ti!

 

Mas se a vida tem dores cruciantes,

Temer não sei! Para sofrer nasci…

Abraço a minha cruz, busco o tormento,

E embora me domine o desalento

Quero sofrer por ti!

 

Não estranho os espinhos da desdita,

Porque sempre em espinhos me feri…

Se hei-de trilhar ainda mais abrolhos,

Se mais prantos virão turvar meus olhos,

Quero chorar por ti!

 

Só pelo teu afecto esqueço os entes

Que mais amei na terra, e que perdi!

É destino! Quem foge à sua sorte?…

Eu a bendigo; e, se o amor é morte,

Quero morrer por ti!


Helena - Alexei Bueno


No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levavam linho, ungüento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fim - Braulio de Abreu

Tu partiste e eu fiquei sofrendo a vida,
Pois nosso amor morreu. A desventura
Tomou conta de mim, alma possuída
Pela desesperança que amargura.

Nosso amor foi manhã, quando nascida,
E hoje, que se acabou, é noite escura,
Ave que tomba pela dor ferida,
Sonho que não é berço: é sepultura.

Nosso amor floresceu em campo aberto...
Hoje, sem mais florir, lembra um deserto
Que de lembranças imortais se junca.

Tudo acabou, depois de tantos anos.
Resta, além de silêncio e desenganos,
Minha saudade que não morre, nunca.

Formosa - Maciel Monteiro

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais no céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

O barco ébrio - Arthur Rimbaud


Como descesse ao léu nos Rios impassíveis,
Não me sentia mais atado aos sirgadores;
Tomaram-nos por alvo os Índios irascíveis,
Depois de atá-los nus em postes multicores.

Estava indiferente às minhas equipagens,
Fossem trigo flamengo ou algodão inglês.
Quando morreu com a gente a grita dos selvagens,
Pelos Rios segui, liberto desta vez.

No iroso marulhar dessa maré revolta,
Eu, que mais lerdo fui que o cérebro de infantes,
Corria agora! e nem Penínsulas à solta
Sofreram convulsões que fossem mais triunfantes.

A borrasca abençoou minhas manhãs marítimas.
Como uma rolha andei das vagas nos lençóis
Que dizem transportar eternamente as vítimas,
Dez noites sem lembrar o olho mau dos faróis!

Mais doce que ao menino os frutos não maduros,
A água verde estranhou-se em meu madeiro, e então
De azuis manchas de vinho e vômitos escuros
Lavou-me, dispersando a fateixa e o timão.

Eis que a partir daí eu me banhei no Poema
Do Mar que, latescente e infuso de astros, traga
O verde-azul, por onde, aparição extrema
E lívida, um cadáver pensativo vaga;

Onde, tingindo em cheio a colcha azulecida,
Sob as rutilações do dia em estertor,
Maior que a inspiração, mais forte que a bebida,
Fermenta esse amargoso enrubescer do amor.

Sei de céus a estourar de relâmpagos, trombas,
Ressacas e marés; eu sei do entardecer,
Da Aurora a crepitar como um bando de pombas,
E vi alguma vez o que o homem pensou ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Para se iluminar de coagulações cianas,
E como um velho ator de dramas inartísticos
As ondas a rolar quais trêmulas persianas!

Sonhei com a noite verde em neves infinitas,
Beijo a subir do mar aos olhos com langores,
Toda a circulação das seivas inauditas
E a explosão auriazul dos fósforos cantores!

Segui, meses a fio, iguais a vacarias
Histéricas, a vaga a avançar os rochedos,
Sem cogitar que os pés piedosos das Marias
Pudessem forcejar a fauce aos Mares tredos!

Bati, ficai sabendo, em Flóridas perdidas
Ante os olhos em flor de feras disfarçadas
De homens! Eu vi abrir-se o arco-íris como bridas
Refreando, no horizonte, às gláucicas manadas!

E vi o fermentar de enormes charcos, ansas
Onde apodrece, nos juncais, em Leviatã!
E catadupas d’água em meio das bonanças;
Longes cataratando em golfos de titãs!

Geleiras, sóis de prata, os bráseos céus! Abrolhos
Onde encalhes fatais fervilham de esqueletos;
Serpentes colossais devoradas de piolhos
A tombar dos cipós com seus perfumes pretos!

Bem quisera mostrar às crianças as douradas
Da onda azul, peixes de ouro, esses peixes cantantes.
A espuma em flor berçou-me à saída de enseadas
E inefável o vento alçou-me por instantes.

Mártir que se cansou das zonas perigosas,
Aos soluços do mar em balouços parelhos,
Vi-o erguer para mim negra flor de ventosas
E ali fiquei qual fosse uma mulher de joelhos...

Quase ilha, a sacudir das bordas as arruaças,
E o excremento a tombar dos pássaros burlões,
Vogava a ver passar, entre as cordagens lassas,
Afogados dormindo a descer aos recuões!...

Ora eu, barco perdido entre as comas das ansas,
Jogado por tufões no éter de aves ausente,
Sem ter um Monitor ou veleiro das Hansas
Que pescasse a carcaça, ébria de água, à corrente;

Livre, a fumar, surgindo entre as brumas violetas,
Eu que rasguei os rúbeos céus qual muro hostil
Que ostentasse, iguaria invulgar aos bons poetas,
Os líquenes do sol e as excreções do anil;

Que ia, de lúnulas elétricas manchado,
Prancha doida, a arrastar hipocampos servis,
Quando o verão baixava a golpes de cajado
O céu ultramarino em árdegos funis.

Que tremia, de ouvir, a distâncias incríveis,
O cio dos Behemots e os Maelstroms suspeitos,
Eterno tecelão de azuis inamovíveis,
Da Europa eu desejava os velhos parapeitos!

Vislumbrei siderais arquipélagos! ilhas
De delirantes céus se abrindo ao vogador:
- Nessas noites sem fundo é que dormes e brilhas,
Ó Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor? –

Certo, chorei demais! As albas são cruciantes.
Amargo é todo sol e atroz é todo luar!
Agre amor embebeu-me em torpores ebriantes:
Que minha quilha estale! e que eu jaza no mar!

Se há na Europa uma água a que eu aspire, é a mansa,
Fria e escura poça, ao crepúsculo em desmaio,
A que um menino chega e tristemente lança
Um barco frágil como a borboleta em maio.

Não posso mais, banhado em teu langor, ó vagas,
A esteira perseguir dos barcos de algodões,
Nem fender a altivez das flâmulas pressagas,
Nem vogar sob a vista horrível dos pontões.
.

UM CONSELHO AOS LEITORES DE PALAVRAS DE ATEOP


Aurora - Adolfo Casais Monteiro

A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

Nordeste - Palmyra Wanderley

Que mais feliz o teu destino fosse,
do que sujeito ao sol que te consome.
Pedes na seca a esmola de água doce
e um pedaço de pão porque tens fome.

Sumiu-se a voz do boiadeiro, mudo.
Secaram as fontes que aleitavam o rio.
No desespero de quem perde tudo
fecha a porteira do curral vazio.

Teus lábios racham, ao travo das raízes.
carregas o destino de infelizes,
rasgando os ombros nus, nos espinheiros...

Enquanto arquejas, maltratado, langue,
a terra tísica vai golfando sangue,
pela boca vermelha dos cardeiros.

Negro forro - Adão Ventura

Minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.

Minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

Roteiro - Leila Miccolis

- "Mas que surpresa boa eu encontrá-la.
Lembra de mim?" - "Me lembro: o escritor...
Já li seu livro" - "E então?" - "Tem muito humor
e o fim, confesso, me deixou sem fala..."

- "Bom que gostou! Eu... quero convidá-la
Para um debate". - "E qual o tema?" -"Amor...
Será de noite". - "Hoje???" - "Por favor"...
- "Irei" - "Perfeito, às oito vou pegá-la..."

- "É muito incômodo..." - "Nem diga isso!
Mas se tiver um outro compromisso..."
- "Não... está bem, anote a residência..."

- "Até mais ver..."  - "Até..." e fui embora,
tendo-a seguido antes, uma hora,
para forjar a falsa coincidência.

Desejo de sentir o que ora não penso... - Emílio Moura

Desejo de sentir o que ora não penso
ou o que penso; e o que penso é não vivido.
A alma retrai-se; o espírito suspenso,
detém-se: é fio irreal interrompido.

Há um ímpeto de fuga que não venço.
Extrai-o de mim mesmo; é sem sentido.
E assim pairo, sonâmbulo, no imenso
campo que fica entre a presença e o olvido.

Como entender o que nem foi vazado
em forma signo ou luz? Como e por que ando
perto e longe de mim que ardo ao meu lado?

Como esquecer que o próprio esquecimento
do que em mim se rebela e está sonhando
rói a sede de ser em que me invento.

Jogo na tarde - Olga Savary

Desafio um deus tardo
que te mostra e te esconde
como jogo de vagas submersas
ao aproximar do som de teus sapatos
pisando cuidado e aéreo ferro
em tua pupila azul doce-feroz
– concha aturdida que se anuncia
no último cristal da tarde.

Mariscos que se incrustam no teu flanco
e te ferem sem que alguém os possa ver
são os sinais da violência interna,
a marca do fogo, fera-caramujo
impassível de serena aparência.

Imaginado
eras único ser que se percorre
entre o sal e duas ondas,
então leio teus versos como leio a água
e vejo claro o cristal na tarde
em que te exaures.

Canto grande - Ledo Ivo


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

 
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

 
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.


De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.


Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.


Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.


Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

domingo, 18 de maio de 2014

A moça da Praça Mauá - Maria Braga Horta

I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?

Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.

A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).

São eles que vêm e vão...

Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente

lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.

II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.

Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.

Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.

III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.

Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.

A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.

De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.

A mulher - Belmiro Braga



Ela, dos 15 aos 20, nos enleia,
dos 20 aos 25, nos encanta,
dos 25 aos 30, não há feia
e, dos 30 aos 40, não há santa.

Dos 40 aos 50, ainda é sereia,
dos 50 aos 60, desencanta:
— Se for solteira — o proprio céu odeia,
se casada — de nada mais se espanta.

Dos 60 aos 70, não descrevo;
embora guarde n´alma um doce enlevo,
traz nos olhos da mágoa o espesso véu...

Seja avó, seja tia ou seja sogra,
toda velhinha meus carinhos logra
por lembrar minha Mãe que está no céu...

Hamlet - Alcides Freitas

Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhos de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!

Sou malvado e sou bom! Minh'alma ora é sincera,
Ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!

Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga ...

Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
O suicídio - uma bala.:. um punhal... uma corda!...

Poema venal - Karline Batista

A alma sente sede de coisas etéreas
Então não tornais a alimentá-la
Dessa matéria efêmera
Desse prazer adâmico
Desse beijo orgânico
Porque tua alma sabe das outras realidades
Enquanto tu finges meias verdades
No ledo frêmito de veias minguantes

Diga lá a tua miséria
Que tu não temes a morte
Não lutas contra a sorte
Posto que é vão ir contra o vau
Quando somos apenas gota
Líquida e errante
Do soberbo manancial.

A noite é sonho intraduzível - Genésio Linhares


A noite é sonho intraduzível
É rua das fêmeas de saias curtas
A noite são luzes e becos
Bares e boates em chamas.

A noite é delírio de sexos
De mentes criminosas
À noite os monstros da alma
Revelam sua vera face.

À noite as sombras imperam
As esquinas se tornam sombrias
O medo é o fantasma a pairar
Por trás de cada árvore.

À noite perturba os sãos
Encantam os poetas desejosos
Enfurecem os perturbados
Enlouquecem os amantes.

A noite é mistério sagrado
É cálice de vinho e cerveja
A ser sorvida com parcimônia
Pois há excesso de essência.


A noite tem idioma secreto
Nem todos estão preparados
Para entender sua linguagem
Rica em sentidos de vida e morte.

A noite é simbolismo ardente
Fogo das paixões humanas
Chama dos desejos mais profanos
A invadir ruas e prostíbulos.

A noite é um cosmo invertido
Fonte eterna de versos e reversos
De poemas etéreos e inconsúteis
De clássicas canções de botequim.

A noite é espelho para a morte
E para a vida, para o belo e o feio
Para o amor, a paixão e tragédia
A noite é sangue, é lua e ilusão.

A noite guarda mágoas e desilusões
Guerras, tramóias e segredos
A noite é cavalo de Tróia
Armadilha aos desavisados.

A noite é a mandala dos simulacros
A rosa mística de seus amantes
O ying e yang da roda da vida
O jogo de faz de contas.

A noite é um baralho de cartas
É a roleta russa dos destemidos
O jogo de dados dos divos afoitos
O palco das divas sedutoras.

A noite é o show de Eros
A mesa de Dionísio e Afrodite
Do amor efêmero, mas veraz
Dos flertes certeiros sem morais.

A noite é sutileza de luzes
E sombras. É jogo de dança
E sensualidade sem par
É fumo inebriante de ópio.

A noite é um mergulho
Na caixa de Pandora
Muitos se lançam e não voltam
Outros são mais comedidos.

A noite é um sonho divino
Intraduzível retrato do ser
Em seu mais íntimo recôndito.
A noite é mestra. Escutemo-la.

A tatuagem - Antonio Carlos Gomes

Fez a tatuagem...
Era um quadro erótico
Numa simples rosa
Errática
Andando junto ao mar.
A brisa e seus sentidos
Neste filme pornográfico
De mulher
Desejante
Talvez o altar
Apenas amar...
O quadro mulher
Sentada na areia
A rosa e a sereia
Cantando amar
Valsando no dia
Imaginando o luar.

Revelação - Valdeci Ferraz


I
Desci ao reino das palavras
Em busca dos versos para fazer um poema.
Surpreendentemente elas se esconderam
E surgiram em seu lugar três carcereiros mascarados
Eles me jogaram numa masmorra fria e escura.
De nada adiantaram meus apelos, meus gritos,
Tiraram a minha roupa e em minhas mãos
Deixaram apenas meus sapatos velhos
Como se com eles eu pudesse escrever.

II
Depois eles se foram deixando somente o silêncio
Aos poucos fui me dissolvendo na ausência da luz
Em pouco tempo eu era apenas uma sombra.
Colei-me na parede fria da masmorra
E senti-a pulsar como um coração humano.
De repente meus sapatos começaram a andar
Mas apenas lhe ouvia as pisadas.
Então no meio das trevas o poema explodiu:

III
“Calcei teus sapatos porque este chão é sagrado,
Tirei tuas roupas para que sejas livre,
Dei-te as trevas para conheceres a verdade
Pois o essencial é invisível aos olhos.
Qual a finalidade da tua busca pelas palavras
Se não és capaz de entender o silêncio?
Ah! Pobre poeta, onde deixaste o cordão
Que guiará os teus passos no caminho da volta?”

IV
“Antecipaste a tua morte descendo neste reino
Com a esperança de ressuscitar no terceiro dia
E espalhar ao mundo as boas novas da poesia,
Mas esqueceste de colocar as luvas de sonho
Porque só assim se colhe as pérolas poéticas.
Não ouses perturbar o sono das meninas
Pois ainda não chegou a hora da colheita.
Vem, senta ao meu lado e escuta:”

V
“Em primeiro lugar eu te escolhi entre os mortais
Para tornar eterna a obra das tuas mãos
Existem milhares de nós, já prontos e disponíveis,
Basta possuir um harém no coração
E a capacidade de derivar a equação do amor.
E assim descobrireis a poesia escondida nos túmulos,
Nos recantos dos embriagados, sob o manto da noite,
Entre as prostitutas e os amantes proibidos.”

VI
“Em segundo lugar
Eu conheço cada parte do teu ser,
Pois antes de nascer navegavas sobre meus ombros
Fui menino contigo e te aninhei na solidão,
Fui teu consolo quando uma mulher te abandonou
Juntos deciframos enigmas e defloramos flores e mentes
Arquitetamos armadilhas infalíveis
E recolhemos o néctar invisível das mulheres ávidas.”

VII
“Em terceiro lugar
Não sabes que é privilégio da poesia penetrar
No impenetrável e reconectar veredas
Para que os sonhos nunca se apaguem?”

VIII
“Quando o céu escurece
E os homens sem alma se erguem como zumbis
A procura de carne,
Quando explode nas ruas o homem bomba
Se imolando pelos deuses inoperantes,
Quando garras de aço estrangulam crianças,
Quando as multidões jogam suas esperanças no homem de barro,
Quando a mulher se espraia na alcova sequiosa e perfumada,
Quando o marinheiro joga no mar as lágrimas de uma saudade
Sabei então que é chegada nossa hora.”

IX
“Nós violamos as regras e somos aplaudidos
Porque viver é mais do que sentir,
Chorar é mais do que sorrir
Cantar é mais do que morrer.
Não sabes que a noite é uma amante fiel?
Sob seu manto se abriga a loucura lúcida
Seus braços são longos para os abraços,
Seus dedos são vagalumes a procura da chave
Que abre a porta do imaginável.”

X
Mas eu só queria um poema para minha amada,
Consegui balbuciar no meio da escuridão
Um rugido feroz ecoou por todo reino
Não sei se saía de mim ou vinha do chão
Ouvi as portas da masmorra se abrirem,
As trevas desapareceram e elas surgiram radiosas
Uma a uma foram se apresentando,
Lépidas, lânguidas, límpidas, lúcidas.

XI
A uma só voz gritaram por todo reino:
“Salve! Salve! Ainda resta um poeta no mundo”.