segunda-feira, 13 de agosto de 2018

REVENDO AGORA A ILHA LEGENDÁRIA - Cecil Day-Lewis

Tradução de Jorge Wanderley

Revendo agora a ilha legendária
De cantos e sereias e de morte,
Pergunto o que a fazia temerária
E aos marinheiros perderem o Norte...
Essas coristas já são bem senhoras...
Cai a pintura, o som da voz é bruto,
Os lábios que beijavam contra as horas
Torcem-se agora ao favor de um minuto.
Já não podem morder. E a nós, gravetos,
Fome e trabalho já nos assediam
Somos uma equipagem de esqueletos
Zombando da canção que nos enviam:
Vamos olhar, sem que nos acovarde,
A retórica púrpura da tarde.

RAVENA – Alexandre Blok


Tradução de Augusto de Campos

Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pesadas de sangue e dor e insídia
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos - ruínas -
Gentes e casa - tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.

Apenas no tranquilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante - perfil aquilino -
Canta para mim da Vida Nova.

PASSATEMPO – Dulce Gracia Alonso Moron

Abro a gaveta junto à minha cama.
Ouço o grito sufocado que reclama
atenção aos guardados que se ama.

Velhas fotos não trazem mais
o perfume e a intimidade dos quintais
já inscritos na aura do jamais.

Alguém passou feito nuvem.
Da ausência calmamente surgem
cálidas falas qual contato de penugem.

Comporta de gaveta aberta,
a incerteza do tempo é certa
e esta dimensão me põe alerta.

ATEMPORAL – Flavia Rocha

No espaço das formas inconstantes,
o vazio preenche eternidades distintas –

um morrer de uma coisa que já não existe
para que outra tome o seu lugar

fora do tempo - explosão da célula sutil
que nos difere de todas as coisas.

MEU DESEJO – Leodegária de Jesus

Não quero o brilho, as sedas, a harmonia
Da sociedade, dos salões pomposos,
Nem a falaz ventura fugidia
Desses festins do mundo, tão ruidoso!

Prefiro a calma solidão sombria,
Em que passo meus dias nebulosos;
Sinto-me bem, aqui, à sombra fria
Da saudade de tempos mais ditosos.

Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.

Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro.

ENTES – Aline Rocha


A sua fotografia me olha
com olhos que adivinham
minha imagem

Eu olho a sua fotografia
e vejo meu reflexo
nos óculos escuros

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

TRÊS SONETOS DE EMILIANA DELMINDA

Do livro Fragmentos D’Alma
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RELÍQUIAS

Nesta velha caixinha abandonada,
que a ação do tempo fez mudar de cor,
retalhos de minh’alma emocionada
guardei, outrora, com carinho e amor...

Relíquias... Eram cantos de alvorada,
e hoje traduzem nostalgia e dor.
Restos mortais de uma ilusão dourada,
vago perfume de sidérea flor.

Ai, tudo o vento do destino leva:
A luz se apaga e, a divagar em treva,
erram lembranças que doridas são!

Na vida é tudo assim! Tudo envelhece
mas, dentro d’alma o sonho não fenece
e o coração... é sempre o coração.
....................................
NOS CAMPOS DA BOCAINA

Tive meu berço ali, á sombra dos coqueiros,
das montanhas azuis na fralda vicejante,
onde o eco repete o canto dos tropeiros,
onde solta a araponga o grito lancinante.

Na rede de tucum, pendente dos pinheiros
embalei-me ao luar de noite fascinante
brinquei sob um doce! de flor dos pessegueiros
com as pedrinhas gentis da fonte sussurrante.

Cresci n'aquelle doce e meigo isolamento,
no loiro macegal curvado pelo vento
das seriemas ouvindo o canto matinal;

e, à monótona voz de prateadas cachoeiras,
dormi no leito azul de lindas trepadeiras,
de amor acalentando o meu primeiro Ideal.
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RESIGNADA

Meu coração é morto e jaz num ataúde
- o peito - sepultura abandonada e fria:
a lira transformada em fúnebre alaúde
geme, á luz do Luar - um salmo de agonia.

Da vida este lutar insano, fero e rude
meu estro sepultou em negra penedia;
mas, do Ideal cor de rosa em lúcida amplitude,
minh'alma vive e sonha em torno da Poesia.

E um lampejo de vida aurífero ilumina    '
minha estrada a seguir. E a crer n'essa mentira,
distingo mais fulgor na estrela peregrina,

mais encantos no eco de esplendida safira!
E, si a dor do martírio essa ilusão fulmina,
- abraço minha cruz e choro sobre a lira !

ESTEREOTIPAS – Ellen Maria Vasconcellos

Em Espanha, sou nada
Em Argentina, sou puta
Em Suíça, bandida
Em Alemanha, bolsista
Em França, sambista
Em Portugal, sou nudista
Em Estados Unidos, latina
Em México, sulista
Em Colômbia, drogadinha
Em Peru, sou gringa
Em Chile, saborosa
Em Uruguai, invejosa
Em Brasil, sou estatística
Vai saber se em algum país
posso eu ser somente uma
mulher.

PEDAÇOS – Vera Lúcia de Oliveira

estou estilhaçada
silêncios saem da boca mansos
estava desenhando palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

PASSA MAIS TARDE – Silvia Sangirardi


quando penso, acho esquisito
fico perdida no breu
vou levando enquanto der
mas desconfio que é mito
vai ver, é problema meu
uma neurose qualquer
mas será, que homem nasceu
pra ser feliz com mulher???

LEMBRANÇA DO POETA – Aglacy Mary

Assisto a você acontecer
Por uma vidraça embaçada
De uma janela de verão
Você passa
E eu suspiro
Chorando o limite
Que nos faz acontecer
Em terrenos diferentes
No meio do caminho do poeta
Havia uma pedra
No meio do meu caminho
Uma janela

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A CONVIDADA – Geny Marcondes

Para o festim que se inaugura agora
mal preparada vou e enfraquecida
o convite chegou fora de hora
e, sabem, sempre fui tão distraída
Os atavios de outrora são inúteis
assim também perfumes e ouropéis
Fiquem guardados túnicas inconsúteis
as tintas, as paletas, os pincéis
Esboço ainda úmido na prancheta
os versos nos cadernos, indefinidos
e pastas de projetos na gaveta
Que sigam só o corpo bem lavado
o rosto limpo, os cabelos lisos
as mãos tranquilas, o olhar cerrado.

QUANDO A PRIMAVERA ATRASA – Francesca Cricelli

Quando a primavera atrasa
e pode não mais chegar
à cidade, o céu se acinzenta sobre ela –
levanto os olhos e perco a amplitude.
O infinito está nas ruas,
há cores nos guarda-chuvas,
nas lanternas, nos semáforos.
Há que se iluminar a cromatura das vias
para refazer a primavera.

O BALDE – Elizabeth Veiga

Recolhi num balde
um pouco de esperança:
era o menor oceano do mundo.

Vi as plantas raquitizando,
o chão queimava,
então brotaram meus soluços
sem sossego,
debulhando um canto.

Tanta secura a desfiar acrílica
estrídula,
me boiava uma lagoa no olhar
tudo era tanto, que sem saber onde,
nem poder guardar,
fiz de conta
que havia um verde longe,
um dedal de esperança
e não debalde.
Então me derramei
de amar.