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sábado, 30 de abril de 2022

ROMANCE DO PANTAJU – César Leal

 

   (Autobiografia)
....
Nasci numa casa grande
dos Inhamuns, no Ceará,
terra onde engorda e cresce
o melhor gado que há
em todo o Brasil-Nordeste
se a seca não o devasta:
é o vale do Jaguaribe,
terra dos Feitosa e Monte,
terra dos Caracarás,
dos Leal, dos Cavalcanti.

Muito jovem fui treinado
nas artes do pastoreio
- criei cedo um nobre estilo
no desafiar de peito
ao cinzento aço bicórneo
que se aos homens degrada
no perfil nobre de um touro
o faz belo e respeitado.

Seguia sempre o meu dono
junto ao pataleo do gado,
olhos recuados na sombra
de uma tranquila humildade,
patas pisando ligeiras
os ossos da relva parda
Circundava-me o pescoço
de leão, quase de touro,
uma coleira de couro
com três argolas de prata.

Chamavam-me Pantaju
- pelos de bronze polido -
quando o solo ao sol rachava
nas margens do Jaguaribe
punha meu rabo de molho
no limo sujo do rio;
meus dentes da cor do orvalho
mordendo jamais feriam,
exceto o touro zebu,
terror de outros Pantajus.

Termino aqui nesta quadra
minha pobre biografia,
tu, César, foste o meu dono,
conta o resto em poesia!

Visita à

Recordas da antiga festa
de São João? Fomos à aldeia.
Tu, um pobre cão rnatuto,
raramente ias à feira;
na pensão nos hospedamos,
ficaste só no quintal,
não me negues que teus olhos
eram águas assustadas
com o fogo dos buscapés
e tanta cinza escarlate.

Depois de jantarmos peixe
por anzol roubado às águas
saíram à rua contigo
os meus sete anos de idade
que acompanhavam Manuel
( aquele que foi meu pai,
sertanejo de oito secas
que morreu tangendo o gado ).

da necessidade de ser bravo

Entramos num bar e tu limpo combate
aceitaste
ser bravo quando um cão semileão, o maior
cão da cidade
de rosnar tempestuoso, coleira
bordada a prata,
veio a ti como um oceano bramindo,
a cauda empinada,
focinho de terremoto, cheirar-te
a raiz do rabo.
lembro teu salto relâmpago, três vezes
menos que um raio,
tamboretes e cadeiras rolaram
sete na sala,
ambos de corpo caíram, ambos
nos pés se firmaram,
depois alcançaram a porta, lutaram
sobre a calçada,
Já na rua corre o mijo do semi-
leão vencido.

Retorno à Fazenda

Quando a alva abriu as portas
à lenta fuga do orvalho
ao bom leite regressamos!
Junto ao curral tu paraste.
Nos olhos havia amor
a contemplar nosso gado,
depois foste até Anália
(minha mãe e tua amiga,
sertaneja, como ele,
que morreu de febre hepática).

O desaparecimento

Mas, numa tarde de agosto,
regressávamos da caça
ao passares na pedreira
que fica ao sul do quintal
cipó-mole-peçonhento
lançou em ti seu veneno.
No outro dia, em Belmonte,
em Belmonte, eras memória:
muitos anos navegaram
mas se te lembro te choro
e indago dos ventos tristes
que comeram teus soluços
nos campos leves da infância,
se ouviram em terras da Ásia
ou trazem dentro de si
o teu lúgubre ganir...

Todavia, os ventos calam.
Nada me informa o teu nome.

Procura e pesadelo

Por que então essa busca
de cinzas idas no vento?
Por que fitar nas esquinas
os altos fornos do tempo?
Por que procurar-te, Amigo,
jovem cão, de minha idade,
se a voz dos cães não se escuta
dentro das grandes cidades?

Perdoa o romance rude!
Não o fiz, vi-o num sonho
escrito, no teu focinho,
doloroso, quase humano.

Tu que encheste de poesia
os campos longe da infância,
triste, em sonhos me apareces,
olhos sitiados de sombras:
e somos ambos perdidos
numa noturna montanha.

sábado, 9 de abril de 2022

QUEM SOMOS NÓS AGORA - Sergio Cohn

 

o que nosso tempo dita
no vício de estar vivo
entre pares

no rastro no rastilho
desta festa de imprevistos
corpo novo
amalgamado ao meu

onde todo ruído branco
se perde em significados
& as frutas
luzem no espanto
do quarto escuro

cintilam as gotas
contra a persiana cerrada
o ar melado de fumo
o húmus o introspecto
sorriso que nada atinge

na mão o copo evaporado
sem prumo
no chão Hakin Bey & Back
“je suis um revolutionaire”
um ou outro universo
esquecido

as vozes ardem
contra a mente
esta noite

e lá fora a chuva
é o silêncio
de todas as coisas:

vozes, sons perdidos
o copo evaporado
de eras

o fértil, o terrível
Iporã, espaço aberto
onde tudo é possível
“ou a total liberdade
no reino da impossibilidade”

ecoa a amiga
antes de desaparecer

segunda-feira, 28 de março de 2022

TRÊS POEMAS de Ana Vis

 

GABRIEL EM VERMELHO

corre no corredor.
A poesia de Hilda trama a visão
escorpiões a fiarem o muro, sim
como paredes altas
e o corpo longo
tecidos
em mosaico sanguíneo
manchas de vinho
as palavras inebriam
Lucius,
onde você estava
quando vinha do orquidário?
Verti vinte anos atrás
nessa conversa secreta:
‘não olha com as mãos’
Mudaram o tempo de lugar
mas reconheço ainda
o doce quente escorrendo
pras pombas da esquina.
Assistir aos trens
sem muro
como quando era menina.
......................
ELEITO LEITOR

Se estamos –
nós íntimos – sozinhos
te abrindo,
exponho cartas
na nossa cara cansada
à cara oculta.

Tudo que não escolhi
saindo pelo seu corpo
lábio lexo
lendo lento

no limite nós.
Nos espera a morte.
Lhe amarro a língua pela lateral da minha.
.................................
UM OLHO NAS GATAS

Uma senhora de costas
se despede e procura
a imagem de sua amiga
saindo pelo vagão.
Vi o vago da memória
e os bruscos buracos
abertos
por baixo da terra.
Os olhos de Clarice correm por túneis escuros,
com paradas, com retornos
variações repetidas,
esqueceremos onde estamos,
quem somos,
dando voltas nos bastidores
esperando a próxima notícia de morte.

Não haverá portas nesse caminho de toupeiras,
apenas escadas.