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sábado, 2 de abril de 2022

POEMAS de Carol Sanches

 

NÃO FOSSE

teria conhecido maria
teria tido um filho chamado joão
teria chorado ao ver isaac
teria deixado as crianças na casa da avó
teria tido vertigem no 3º dia em machupicchu
teria desejado ir de trem
teria olhado as estrelas
enquanto mastigava coca
teria parado de fumar aos 28
começado a tomar vinho aos 30
teria feito uma festa surpresa aos 40
teria se divorciado aos 45
teria pesquisado sobre abdominoplastia 30 vezes
fotografado um boto cor-de-rosa
visto um tubarão cabeça chata no rio amazonas
subido os degraus do vaticano
descoberto condromalácia aos 53
começado a tomar frontal aos 60
teria o maior dos deja vis
teria colecionado carros em miniatura
teria cruzado o deserto de atacama aos 70
teria conhecido maria
................
EXPERIÊNCIAS ALQUÍMICAS

no fogo,
comecem jogando meus poemas
vejamos se dói

depois,
joguem minha vida inteira
no fogo

há nos desejos incendiários
o risco de matar o estado das coisas
– há chance de não haver volta

há também o risco
dos desejos incendiários
criarem alteridade:
não é o que sobra
é no que se transforma
........................
O TAROT

que o mistério do mundo
está no mundo
todos sabem

dirão, é claro
a lua tem fases
a lua estica as marés
a lua minguante faz cair os cabelos
de vergonha

só não dirão
tan seguros
como a carta se levanta inteira
após o corte
ou sobre como o corte
sangra limpo
sem vestígios
.................
A FORMA

prefere os cavalos
montados a pelo
prefere as ondas
surfadas em jacaré

da vida tira,
estica
o máximo
da pele
....................
O CRÔNICO

o mais difícil de morrer
é esta morte não anunciada

morrer é algo que se espera
depois que já se está morto
nem um minuto antes

segunda-feira, 7 de março de 2022

HAVIA SÓIS - Beatriz Bajo

 

entre os dedos escorregadios
eles se esparramavam
pelas camisetas brancas
das crianças pretas
respingadas de laranja nas beiradas…
laranja era a cor de seus sonhos
que traquinavam dentro da biblioteca
toda de vidro
chamada Carlos Drummond de Andrade
mas só conseguia lembrar-me de G. Ramos
e da purificação da escrita
uma biblioteca envolvida em vidro
incitava fantasias de transparência
toda aquela claridade…
quanta luz poderia atravessar o espaço?
naquela parte tão franca
pensava em sujar palavras
rasurá-las, cuspir nas palavras…
era bom vê-las manchadas de gente…
a palavra alaga
a palavra alastra
a palavra gasta
a palavra apaga
a palavra lavra
não interessava a palavra enxuta
mas pingada de caos
soprando assaz às asas do verbo
enquanto um passarinho pisava destro
sobre os galhos da árvore amarela
abria e desabria asas
quando é dia, desaba a palavra
enlaçada na agulha riscada pelo vinil antigo
quando é noite, ascende a palavra aberta
a palavra aberta sangra?
a palavra assassinada
há um vão em cada letra
no peito do poema
há uma palavra morta
lembro-me dos sorrisos esvoaçantes
sacudindo os olhinhos amanhecidos
de silêncio e nuvens pintadas
nos jardins dos instantes
dentro do alvoroço das idades
cintilavam vazios coloridos
há versos pretos no meio da rua
resvalados pelos passos da noite
há versos pretos no meio da noite?
há versos brancos no papel
esbaforidos de meio-dia
versos brancos caminham de dia?