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quarta-feira, 13 de julho de 2022

COSTURA – Diego Rebouças

 

para minha mãe
.......
nave crua do tempo
de pedras pontes presságios

medusas enraizadas
no fundo de uma gaveta

onde dormem traças
e meias sem par

que será do verso erguido
em homenagem à minha avó

costurando bonecas de pano
perdidas nas memórias das filhas

hoje todas grandes
(todas, sem exceção)

era que ano, esse de minha avó,
na praia com cara de sertão?

em que limbo, linha e chita
sua mão ainda hoje exercita

costuras na minha imaginação?
ora veja, tempo, nave crua,

como as coisas são:
da pedra nasceu a ponte

e da ponte o presságio
da mão sumida no verso

perdido na gaveta – qual?
não sei, nem sabe ninguém;

no improviso do resgate, um
novo poema se abre porém,

se enraíza no chão
dos improváveis

como uma flor miúda
inaugura na paisagem

toda uma usina
de sinas insondáveis

quinta-feira, 31 de março de 2022

POEMAS de Laura Navarro

 

MATRYOSHKA

No dia do meu aniversário
Tu me deste uma dessas bonecas
Que eram várias
Dentro de uma
Como mãe e filha
Como alma e corpo
E, como eu,
tu disseste.

Elas sorriam, elas choravam
ao mesmo tempo
E conforme elas iam ganhando vida
Eu ia apodrecendo
Quem diria,
Uma boneca animando
humanos
Como uma menina brincando
de barbie?

Você sabe, eu guardava
As pétalas das rosas
que você me dava
dentro delas
Como se fossem vasos

E eu as carrego comigo
Como uma mãe que carrega
suas filhas
A diferença é que
A mãe é a matrioska, não eu

Aliás, se eu tivesse uma filha
Queria que essa boneca
fosse a parteira
assim como eu
em todos os partos dela

E que o cordão umbilical de minha menina
Fosse guardado dentro dela

E, quando eu morrer
Eu só peço
que a maior delas
seja enterrada comigo
E que coloquem as outras
Ao redor de meu túmulo
..........................
FLANEUR

Olho aos cantos de minha cidade
como se passasse a tempos anteriores
aos meus
e andasse em outros sapatos
cheiro de fuligem que me penetra
a chuva cai lentamente
mudando lentamente
os tons do céu dos prédios dos museus
de absolutamente
tudo
erupção sensorial
de cores dissonantes
que podem ser
tocadas
pelos meus
mocassins