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sexta-feira, 22 de abril de 2022

POEMAS de Damário da Cruz

CAIXA - PRETA

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.
...........................
CERTO VOO

Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.

Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.

Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.
...............................
ESTRELA DISTRAÍDA

Longe de Miramar
e Havana cria estrelas.

Se não me reconheço
como voltar a Miramar?
Com luz nenhuma
na cegueira de estrangeiro?

Se não me reconheço
como voltar a mim?
Com espelhos de crianças
erguidos para a lua?

Estou só...
longe de Miramar
e a escuridão pinta o céu.
............................
LUZ ALHEIA

Não sou
tua estrela guia

Algum cometa
desvia olhares,
alguma noite
é mais escura,
algum céu
é leviano.

Não sou
teu porto seguro.

Algum farol
seduz a proa,
alguma gaivota
voa à-toa,
algum vento
é fugaz.
........................
SAUDADE

Deixarei
a lua acesa
na varanda.

No meu retorno
dos becos noturnos
e do lual de Luciano,
evitarei tropeçar
na tua ausência...

quarta-feira, 2 de março de 2022

À FLOR D’ALMA – Lina Tâmega Peixoto

 

Compro um barco e aí vou
descobrir um continente.
Já me cansei desta terra,
do abrigo, das promessas.

Fecho os olhos e abro as velas
sinto a sorte delirando.
Todo estendo meu cabelo,
frutos neste mar brotando.

Lá, deixei tudo o que tinha
como se já fora morta.
Ah! Porém, fraqueza e âncora,
coração, levo comigo,

pois não consigo afogá-las.
Pesam tanto. Eu não sabia.
Não descubro meu destino
nos rodopios do vento

que açoita a minha paixão.
Navego na mesma rota
de um avô açoriano
- ermo sol da estrela norte.

Que sofra por ter querido
reino tirado dos livros.
O tempo já é outrora,
sigo na imagem do mar.

Eis que súbito, encalho
à flor d’água, d’alma.