segunda-feira, 9 de abril de 2018

O DIA DA LIBERDADE - José Jorge Letria

Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afeto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo teto.

domingo, 8 de abril de 2018

NO LUGAR DA ÁRVORE, O CORPO – Inês Leitão

 Somos arbustos nus,
nós os dois aqui. deitados.

Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão
(nós aqui somos arbustos invejados)

Pernas a ganharem força
braços deformados à laia de tronco de corpo
(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde
pequenos bichos constroem o seu lar)

Nós, os bonitos arbustos
viemos os dois
da vagina da mesma árvore.

ARAGEM – Gonçalo Salvado


Como aragem perfumada
a mim te entregas, minha amada.

E não sei se existes ou se te sonho:
meu desejo te nomeia
pura brisa de folhagem.

Que aroma me envolve quando te despes?

Esta fragrância que me inebria
vem do teu corpo ao desnudar-se
ou da luz rosada que amanhece?

VELA DO EXÍLIO - Gabriel Mariano

Acendi hoje uma vela
de estearina na fina
mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
da chama para os meus olhos
velhas lembranças seguiam.
E súbito sobre a parede
da velha casa onde moro
o mapa árido e breve
das ilhas do Cabo Verde.

Que vento não vem ou se agita
no barco em forma de vela
por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran ,,
da ilha difusa difunde
meu nome em projecto?

Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
por sobre a mesa pessoas
vivas e mortas passavam.

Vela do exílio acendida
na noite de Moçambique:
pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
com apenas um sopro apagas
a vela, o exílio não.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

... E NÃO SOBROU NINGUEM - Martin Niemöller

primeiro levaram os comunistas
mas não me importei com isso
eu não era comunista;
em seguida levaram os sociais-democratas
mas não me importei com isso
eu também não era social-democrata;
depois levaram os judeus
mas como eu não era judeu
não me importei com isso;
depois levaram os sindicalistas
mas não me importei com isso
porque eu não era sindicalista;
depois levaram os católicos
mas como não era católico
também não me importei;
agora estão me levando
mas já é tarde
não há ninguém para
se importar com isso. 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

POEMA DE AMOR – Fernando Namora

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu...

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes o velho drama
do lobo que matou o cordeiro
e lhe comeu o seu pão,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou, — mal ou bem...

Depois, sabes... eu estou cansado
desta farsa.

Histórias, lendas, amores...
tudo me corre os ouvidos
a fugir.
Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada;
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou...

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz...
............................................
Quero-me só, a sofrer e a arrastar
a minha cruz!

O MAR, O MAR – D. H. Lawrence

Tradução de Leonardo Fróes

O mar dissolve tanta coisa
            e a lua leva embora tão mais
            do que sabemos -

Assim que a lua baixa
e o mar se apossa de nós
as cidades se dissolvem como sal-gema
o açúcar funde fora da vida
o ferro some como velha mancha de sangue
o ouro se transmuda em sombra verde
o dinheiro sequer deixa um sedimento:
só o coração
cintila em seu triunfo salino
sobre tudo o que soube e agora foi-se
na salinidade do nada.

O INVENCÍVEL – Mario Barité

Esta luz que se ergue
firme te atravessa,
esta lava que alivia
e não queima quando avança,
e é louvor de rei.

E é aço e é papiro
e transgride qualquer lei,
amnésia de quase tudo
que dura quanto um suspiro
e de tão fugaz parece eterna.

Esta luz é o invencível
e fulgura na caverna,
a que não podemos dizer
senão com extremo tato,
com palavras inaudíveis,
com silêncios que redimem
quanto solidão de peso”,
quantas ganas de prender,
de tornar-te prisioneira
e ser teu escravo possesso.

Esta luz é  o invencível
e transgride qualquer lei,
amnésia de quase tudo
que dura como um suspiro
e de tão fugaz parece eterna.

PALAVRAS ADEQUADAS - Alberto Acosta-Pérez

Tradução de José Eduardo Degrazia

Eu não quis cantar nem o amor,
nem o país, nem a mim
mesmo, mas todos,
o amor, o país, e eu mesmo,
numa golfada fatal
através de mim se levantaram
e como deuses invencíveis,
por cima do medo,
deslizaram na minha boca
as palavras adequadas para ferir e amar,
mais altas do que o inverno,
mais fortes,
mais permanentes que o diamante;
palavras que fecharam as portas da fuga
e atravessaram meu coração feito punhalada,
e se escreveram sozinhas,
contra a minha vontade de ser totalmente livre,
contra o meu pensamento,
e inclusive, às vezes,
contra o meu próprio coração!

segunda-feira, 2 de abril de 2018

CANTIGA DO MUNDO – Paulo César Pinheiro

O vento não nasce de nada.
Também ninguém sabe onde finda.
Cheguei com esse vento na estrada.
E vou muito mais longe ainda.

Eu moro no meio da rua,
Do rio, do mar e do mundo.
Se a brisa passar, ela é sua.
Se é o vento, eu mergulho no fundo.

Pra mim não tem vento bravio
Que venha apagar minha brasa,
Pois é com a corrente do rio
Que eu tranco o portão lá de casa.

Tem gente que ouve o meu nome
Gravado em rajada de vento
Porque furacão e ciclone
Me servem de cama e assento.

O vento que faz rodopio
Desata o cordão da sacola.
E uso do seu assovio
A fim de afinar a viola.

Por isso é que eu sou vagabundo.
E o vento que quer que eu prossiga.
Que eu faço a cantiga do mundo
E o vento é que canta a cantiga.

AS POMBAS – Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

sábado, 31 de março de 2018

DE NOITE VELAM OS POETAS – Sergio Mondragon

De noite velam os poetas
         com olhos que brilham no escuro;
         aptos para a contemplação
                            o pensamento voa
         no sono mergulham
         o sentimento do altiplano os agasalha
                  em sua cama de intuições
         abutres do divino
         aves dos desfiladeiros com o pescoço exposto
         a ira de imagens em debandada:

abandonem esta presa!
                   soltem estas mãos!
                   deixem que a noite pense por suas bocas!

na substância espessa do imóvel
         sabem o que as coisas se dizem no escuro
         ouvem os seres roçam com os seres
         ouvem-nos saboreando a maçã
         na ânima do mundo
         na chapada terrível sem beiradas
         os poetas vela
                   os poetas sonham
                            com os olhos abertos para o vazio